GUIA DO ACOMODADO PRA ENTENDER O QUE ACONTECEU NO DIA 13.06.2013 NO PAÍS E (QUEM SABE) ACORDAR

19 junho, 2013

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Obrigado. De nada.

Quatro matérias sobre São Paulo:
1 – http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/06/apos-protesto-na-av-paulista-pms-agridem-jovens-em-bar.html

2 – http://f5.folha.uol.com.br/televisao/2013/06/1294753-datena-muda-de-ideia-sobre-protestos-em-sp-apos-enquete.shtml

3 – http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/06/1294952-fotografo-corre-o-risco-de-perder-a-visao-apos-ser-atingido-por-bala-de-borracha-em-protesto.shtml

4 – http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/06/1294799-em-protesto-seis-reporteres-da-folha-sao-atingidos-2-levam-tiro-no-rosto.shtml

Duas repercussões internacionais:
1 – http://internacional.elpais.com/internacional/2013/06/14/actualidad/1371183071_807829.html

2 – http://www.nytimes.com/2013/06/14/world/americas/bus-fare-protests-hit-brazils-two-biggest-cities.html?_r=1&adxnnl=1&ref=world&adxnnlx=1371207077-nkPJgYtnZpP8pU4l2vXfKw

Três vídeos:
1 – http://g1.globo.com/videos/t/todos-os-videos/v/policiais-disparam-balas-de-borracha-em-manifestantes-em-sao-paulo/2633186/

2 – http://www.youtube.com/watch?v=kxPNQDFcR0U

3 – http://www.youtube.com/watch?v=_V18ctB7ydY&feature=youtu.be

Três depoimentos:
1 – http://www.facebook.com/luciana.boullosa.5/posts/655862371095413

2 – http://www.facebook.com/mario.silva.900/posts/596313810403133

3 – http://www.facebook.com/elcio.fonseca.14/posts/610691765616547

Uma posição oficial:
1 – http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-06-13/haddad-diz-que-valor-da-passagem-de-onibus-de-sao-paulo-sera-mantido-apesar-dos-protestos

Uma notícia de Porto Alegre
1 – http://www.sul21.com.br/jornal/2013/06/manifestacao-em-porto-alegre-termina-em-cerco-violencia-e-prisoes/

Outra do Rio de Janeiro:
1 – http://oglobo.globo.com/pais/a-pm-comecou-batalha-na-maria-antonia-8684284

Dois artigos pra quem anda descontextualizado:
1 – http://impedimento.org/milhares-ja-escolheram-sapatos-que-nao-vao-apertar/

2 – http://super.abril.com.br/blogs/crash/a-gota-que-faltav/

Um contexto histórico:
1 – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/a-guerra-do-vintem

Uma (das muitas) soluções URGENTES:
1 – http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1097828-paises-da-onu-recomendam-fim-da-policia-militar-no-brasil.shtml

Habemus Papam (2011)

9 novembro, 2011

Diretor: Nanni Moretti

Roteirista: Nanni Moretti, Francesco Piccolo

Com: Michel Piccoli, Jerzy StuhrRenato Scarpa

No primeiro capítulo de Imagem-Tempo, o segundo volume de seu estudo acerca do cinema, G. Deleuze aponta uma fratura na representação do “real” ocorrida a partir do Neo-Realismo: as situações sensório-motoras, que até então “impeliam” as personas fílmicas à ação, entram em crise em detrimento de situações óticas e sonoras que atravessam e extravasam os personagens, incapazes de lidar com tamanha força sobre si. Como exemplo, cita a cena da jovem empregada em Umberto D., na qual a moça entra na cozinha de manhã e faz uma série de gestos maquinais – limpa, expulsa as formigas, abre e fechas portas da dispensa. Mas, “quando seus olhos fitam sua barriga de grávida, é como se nascesse toda miséria do mundo.” Deparada com essa “situação ótica pura”, a empregada não encontra resposta ou ação. (É por isso também que Deleuze concordaria que o Neo-Realismo é um cinema de encontro… o encontro dos olhos e da barriga, para o qual não se tem resposta).

Mas é Nanni Moretti que, quase 60 anos depois do filme de De Sica, oferece um tipo de “encontro” supremo, único na sua extensão e intensidade: a fé em Deus, capaz de catapultar o pobre protagonista (Michel Piccoli) para dentro de si, uma busca atrás de suas origens mais “humanas”, o que, invariavelmente irá lhe afastar ainda mais de seu objeto de adoração (e seu conseguinte lugar no mundo).

Em Habemus Papam, após a morte do último Supremo Pontífice, os 108 cardeais da Igreja Católica reúnem-se num Conclave para a eleição do próximo; eleição que é feita “duplamente”, pois é através dos votos dos cardeais que a vontade de Deus se faz manifesta. O escolhido é o retraído Melville (Piccoli) que, desconfortável frente aos demais cardeais que formalizam a passagem, percebe que é naquele momento que “todos se foram, todas as memórias desapareceram.” Ou seja, quando Deus lhe falou, sua vida pregressa desapareceu; Melville passa a ser o receptáculo da vontade de Deus na Terra.

Moretti diz, acerca de seu filme, que “humanizou o Papa”. De certa forma, o fez: ao promover este encontro entre a vontade divina e um “mero” cardial, aponta a incapacidade do ser humano em lidar com aquilo que é maior do que si. Melville não se considera apto para a função (convém dizer que, querendo ou não, ele deve aceitar a cruz que lhe foi imposta), e parte para dentro de seu âmago para encontrar os motivos para negar seu destino. Procura psicólogos, que ora lhe indicam traumas na infância, ora lhe sugerem estresse emocional. À frente de ambos, Melville só consegue balbuciar: “antes eu fazia muito, agora já não posso mais nada.” Com o peso não só de um mundo (o terreno) sobre suas costas, mas de dois (o divino), não admira essa incapacidade de agir. O que torna mais interessante ainda o fato de Melville, mesmo após ter refutado um desígnio divino, jamais questionar sua fé. Esta permanece inabalável, mesmo após ter cindido no seu cerne.

Logo, tem início um jogo de espera, de inação, que irá se derramar sobre todos os outros personagens da trama: o psicanalista arrogante (o próprio Moretti), que vive repetindo, para quem lhe der ouvidos, que é o melhor no que faz – ainda que seja incapaz de ajudar o Pontífice; a psicoterapeuta, ex-mulher do psicanalista, incapaz de assumir um namorado para seus dois filhos pequenos; o assessor de imprensa, incapaz de resolver uma situação que ele mesmo provocou; os cardiais, incapazes até de esperar pela definição do novo Papa, e que passam por um divertido processo de “humanização” na presença do falastrão psicanalista. Há, inclusive, nos primeiros minutos do filme, um repórter de televisão flagrantemente incapaz de exercer sua profissão – e, mais para o fim, um comentarista incapaz de tecer qualquer comentário.

No meio desse jogo, Melville perde-se pela capital italiana e depara-se com uma trupe de atores de teatro russos, preparando uma nova encenação de Tolstói. O novo Papa lembra que seu sonho não concretizado era ser um ator de teatro. Imiscuído entre os novos amigos, Melville não percebe como os atores são “incapazes” de lidar com o mundo a seu redor – fato escancarado no ator que repete sem parar as falas (todas, não só as suas) da peça, mas também perceptível quando todos, em volta de uma mesa, conversam sobre assuntos desconexos uns com os outros. Assim, atentem para o único personagem realmente capaz da trama, o soldado do Vaticano que exerce um jogo de duplo com o Papa – a bem da verdade, sua tarefa nem é das mais difíceis, mas o filme é tão recheado de incapazes que somos tentados a pensar que este é mais um deles.

É nesse mar de incapacidade, de mediocridade, que Moretti nos submerge. Frente aos grandes desígnios do universo (acredite-se Nele ou não), não somos mais do que crianças amedrontadas que não conseguem conter o impulso de botar o dedo na boca. É por isso que o desfecho dessa trama só pode ser um, e que Moretti desembaraça ao explodir esse estranho emaranho de fé e esperança cega que depositamos nos “escolhidos” por Deus, esquecendo que, eles também são tão frágeis (e psicopatas) quanto cada um de nós.

Cobra (1986)

29 outubro, 2008

Cobra é um dos clássicos da Sessão da Tarde e um dos filmes essenciais – na minha opinião – da longa e bem-sucedida – de novo, é a minha opinião – de Sylvester Stallone. Rodado em 1986, quando Stallone já começava seu distanciamento do grande público (Rambo II e Rocky IV foram produzidos um ano antes), Cobra segue o policial Marion “Cobra” Cobretti, ídolo do Zombie Squad, o baixo escalão da Polícia.

Na trama – baseada no livro Fair Game, de Paula Gosling – Cobra enfrenta uma organização criminosa chamada pela mídia de The Night Stalkers. Os outros detetives, principalmente Monte (Andrew Robinson), acreditam que o responsável por assassinar 16 pessoas até o começo do filme é apenas um homem. Porém, Cobra acredita se tratar de uma organização, o que depois se prova acertado.

Alguém tentando fazer uma leitura intelectual poderia dizer que se trata de uma crítica este contraponto entre o policial ‘de gabinete’ – no caso, Monte – e o policial com o bafo das ruas na cara – no caso, Cobra – que tem uma visão mais acertada do crime pois convive com a marginália. É claro, se alguém quisesse fazer uma leitura intelectual de algum filme, certamente não seria do Cobra.

Stallone emprestou o próprio carrro, um Mercury 1950, para as filmagens

Stallone emprestou o próprio carrro, um Mercury 1950, para as filmagens

As marcas características da interpretação de Stallone estão lá para o deleite de seus fãs: seu olho caído e sua voz de pamonha. Ele interpreta exatamente da mesma forma que faz em Rambo: não interpretando. Ainda assim, seu Cobretti é muito mais ‘machão’ do que o habitual, e uma metralhadora giratória de frases-prontas do tipo “você é a doença e eu sou a cura” ou “o tribunal é civilizado, mas eu não” que levam a torcida à loucura.

Além das belas frases-prontas (todo bom filme de ação tem de ter as suas), o ponto alto do filme é a atriz dinamarquesa Brigitte Nielsen (Ingrid) em sua terceira produção – os outros dois são Red Sonja, que protagoniza, e Rocky IV. Depois dessas pérolas do cinema americano, ela seguiria a linha trasheira, fazendo belos trabalhos como The Double 0 Kid, o clássico WIP-trash Chained Heat II e a bomba de FC Galaxis, além de estrelar com Eddie Murphy em Um Tira da Pesada 2 (Beverly Hill Cop 2). Aliás, momento fofoca: Stallone se apaixonou por Brigitte na época e saiu com ela… até descobrir que ela o traia com a sua SECRETÁRIA!

O filme recebeu seis indicações ao Framboesa de Ouro (Pior Filme, Pior Ator (Sylvester Stallone), Pior Atriz (Brigitte Nielsen), Pior Ator Coadjuvante (Brian Thompson), Pior Roteiro e Pior Revelação (Brian Thompson). E é o ápice da década Grim’n’Gritty (algo como ‘malvado e furioso’, os anos 80), com um protagonista mais anti-herói do que o habitual das outras produções – ele é ‘salvo’ de cometer um assassinato à sangue-frio no último minuto – e um grupo de vilões que praticam a violência sem motivo aparente. Um verdadeiro clássico direto da lata de lixo Hollywoodiana! 🙂

Brigitte Nielsen, que traiu Stallone com a secretária

Brigitte Nielsen, que traiu Stallone com a secretária

Pérolas do Cobra

BANDIDO: “Vou explodir esse supermercado!”
COBRA: “Vai fundo, eu não faço compras aqui.”

COBRA: “Você é uma doença e eu sou a cura.”

COBRA: “Isso faz mal para sua saúde”
MALANDRO: “O quê? Cigarro?”
COBRA: “Não. Eu.”

DETETIVE MONTE: “Você sabe que tem um problema de comportamento?”
COBRA: “Sim, mas ele é pequeno.”

INGRID: “O que você faz para relaxar?”
COBRA: “Procuro por encrenca.”

ASSASSINO: “O Tribunal é civilizado!”
COBRA: “Mas eu não.”

COBRA: “É aqui onde a lei pára e eu começo.”

NOTA: star.jpgstar.jpgstar.jpgstar.jpg

Robo Vampire

26 março, 2008

Gênero: Filme B de Artes Marciais, de Terror, de Comédia, de Ficção Científica, de Romance, etc

Tempo de Duração: 90 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1988
Estúdio: Filmark International Ltd.
Direção: Joe Livingstone (Godfrey Ho)

Elenco:
Robin McKay
Niam Watts
Harry Myles
Joe Browne
Nick Norman

RESENHA: “O agente de Narcóticos Tom Wilde recebe uma segunda chance quando uma operação futurista salva a sua vida. Ele retorna à vida como um Androibot, meio homem-meio máquina. Sua primeira missão é adentrar o Triângulo Dourado para resgatar uma agente que está sendo mantida em cativeiro pelo maligno Yeung”, segundo a capa do VHS. Mas isto não é tudo! Do lado dos bandidos (eu acho), um grupo de traficantes orientais passa a utilizar vampiros chineses como mulas para suas drogas. Tudo se complica quando a esposa fantasma de um dos vampiros retorna, exigindo um casamento com seu falecido, que agora, além de um vampiro, tem a cara do Dr. Gori. Do lado dos mocinhos (talvez), um grupo mercenário é contratado para “ajudar” a investigação do nosso herói, mas nunca toma conhecimento do mesmo. Para completar, o filme se chama Robo Vampire. O FILME SE CHAMA ROBO VAMPIRE, e se leva muito a sério!

Esforcei-me muito para resumir o enredo do filme logo acima. Por mais que eu conseguisse explicar o enredo do filme, eu não entenderia, nem me batendo com um gato morto na cabeça. Isso acontece por que Robo Vampire não é UM filme ruim: são DOIS filmes ruins juntos, transformados num único graças às maravilhas da mesa de edição. O resultado é tão B, mas tão B, que um enredo que mistura TRAFICANTES JAPONESES, VAMPIROS CHINESES, UM SÓSIA DO ROBOCOP, MERCENÁRIOS TAILANDESES, O EXÉRCITO AMERICANO, UM BARÃO DA COCA EUROPEU, UM SACERDOTE PROPENSO A SE ACHAR O NOVO DR. MOREAU, UM PADRE VICIADO, UMA COROINHA GOSTOSA, UM FRANGO ASSADO VOADOR, UMA FANTASMA DE TOPLESS E UM VAMPIRO-MACACO QUE SOLTA FOGOS-DE-ARTIFÍCIO PELAS MÃOS se torna perfeitamente aceitável.

 

A vampirada pula solta em Robo Vampire

O filme começa com dois soldados americanos numa missão na selva. Eles encontram alguns caixões espalhados no chão. Quando vão inspecioná-los, são surpreendidos por uma cobra saltitante (voadora, voadora! A cobra realmente voa!) e um punhado de vampiros chineses – que, prestem atenção, não são como os nossos europeus: eles são meio necrosados (pelo menos, acho que [e isso que a “maquiagem” geléia de framboesa na cara deles significa) e movimentam-se por pulinhos. Os vampiros saem pulando atrás dos dois soldados, enforcam um e, quando vão atacar o outro, são atacados por um lutador de kung fu que era prisioneiro dos americanos. Pouquinho de artes marciais são exibidas terrivelmente (no mau sentido), e o vampiro sai vencedor, após detonar um pedaço de bife (literalmente) do pescoço do outro soldado. O lutador de kung fu desaparece tão rápido quanto surgiu e aparece na tela o título “ROBO VAMPIRE”. Corta para um bando de traficantes japoneses, carregando um navio. Um barão da coca europeu reclama com seus subordinados japas que os porcos deram flagrante em mais uma de suas ações. “Tenho que achar uma maneira de me livrar do Tom, aquele ótimo policial”, diz o fulando (guardem o nome de Tom). A idéia que ele arranja é tão óbvia que você já deve ter pensando nisso um zilhão de vezes: arranjar um monge taoísta com quedinha por ser o novo Dr. Moreau, que cria vampiros chineses para servirem de mulas para suas drogas (a cena onde drogas são “escondidas” dentro dos vampiros é antológica). Segue a única cena PROPOSITALMENTE cômica do filme: dois empregados traficantes vão para o porão do navio/casa/onde quer que seja para alimentar os vampiros-chineses-mulas-saltitantes. Como ficam com medo deles, acabam alimentado-os a distância (vampiros tailandeses comem frango assado!). Algo vai mal e os vampiros acordam, prontos para papar os dois bocabertas. Eis que surge o Dr. Moreau para salvar o dia e recolocar os vampiros para dormir – com uma vela!

 

Cenas de violência gratuita de OUTRO filme

Corta para uma mulher escondendo drogas no bucho de uma VACA MORTA DE VERDADE. Isto não só é uma novidade em Robo Vampire, como é totalmente um novo filme. Se existem vacas mortas como mulas, por que diabos os vampiros são mulas também? Não que faça diferença: essa cena é única; não existe mais menção alguma dela no restante do filme. Aliás, ela nem ao menos faz parte desse filme! Então, esqueçamos que vimos uma vaca morta de verdade de buxo aberto e voltemos ao nosso filme.

 

Da esquerda para a direita: um executivo, um pai norte-americano e um sacerdote taoísta

Em algum outro lugar, o Dr. Moreau/Sacerdote Taoísta recebe a visita de um executivo e um… um… PAI tipicamente norte-americano, com um moletom escrito “RACING”. Obviamente, ele não sabe o que faz no filme, então age conforme o outro. O outro, o executivo, exige que o Dr. Moreau mostre o Super-Vampiro desenvolvido pelo nosso sacerdote. O Super-Vampiro não só possui super-poderes (como soltar fogos de artifício pelas mãos), mas também veste UMA MÁSCARA DE GORILA! Neste exato momento, surge uma fantasminha seminua que se apresenta como Christine. Nada melhor como a própria moça para explicar o que diabos está acontecendo:

CHRISTINE: “Como ousas pegar o meu amado Peter e transformá-lo num Super-Vampiro? Agora ele está condenado a voltar dos mortos, e nós nunca poderemos estar juntos no além-vida! “

DR. MOREAU: “Mas ele é oriental e você ocidental, como explica?”

CHRISTINE: “Nossos pais não gostavam da diferença de raças, e por isto mesmo oposuram-se ao nosso casamento! Então nós decidimos: se não pudéssemos ficar juntos nessa vida, Peter e eu ficaríamos juntos para sempre na outra vida. Você roubou isto de mim ao transformá-lo num Super-Vampiro! Agora, meus pensamentos são de vingança!”

Ah, tá, claro!

Bem, se você não ficou chocado com a história da fantasminha seminua, saiba que o executivo ficou. E ele propõem, então, que o casamento seja realizado. O sacerdote relutantemente aceita, com a condição de que eles o obedeçam depois. E Peter e Christine viverão felizes para sempre…

Nah! É claro que não! Isto aqui é ROBO VAMPIRE, e se leva muito a sério! Muito possivelmente no dia seguinte, o sacerdote é emboscado por um grupo de soldados americanos. Ele conjura vários vampiros – que saem de debaixo da terra – para livrar-se da encrenca. No meio da luta, Peter/Super-Vampiro/Gorila mata um dos soldados com os fogos de artíficio que saem de suas mãos. O soldado morto – que descobrimos se tratar de Tom, o personagem principal do filme, mencionado EM UMA FRASE anteriormente – é levado de volta para o QG da tropa, onde passa por um moderno procedimento científico e torna-se o Robo do título.

 


Christine, a fantasminha semi-nua

Esperem! Antes, rola um monólogo fantástico de algum sujeito que aparece pela primeira vez. Ele vira-se para um soldado com aparência de adolescente e diz: “Como Tom está morto, eu desejo usar seu corpo para criar um robô tipo andróide, Sr. Glen. Gostaria que você aprova-se minha aplicação”. Mr. Glen – o adolescente – concorda.

Na sala de cirurgia, no meio de avançados equipamentos médicos como um rádio com sinais de + e de – e uma furadeira elétrica, Tom é transformado numa mistura de Robocop com lixeiro. Todas as partes que deveriam ser de metal em sua armadura transforma-se milagroasamente em nylon, papelão e papel alumínio.

A moderna máquina de fazer androibots

Chegamos a um terço do filme. Ufa!

Aparece então uma cena de violência aleatória. Esta é uma cena do OUTRO filme, qu está prestes a começar! O outro filme não tem traficantes japoneses, vampiros chineses, um sósia do Robocop, o exército americano, um sacerdote com propensão a se achar o novo Dr. Moreau, um frango assado voador, uma fantasma de topless e um vampiro-macaco que solta fogos-de-artifício pelas mãos. Mas tem um grupo de mercernários tailandeses, um barão da coca europeu, um padre viciado, uma coroinha gostosa e um bando de caras que luta kung-fu muito bem (ao contrário do outro filme).

De qualquer forma, eis o que acontece: aparentemente, na COLÔMBIA ou no MÉXICO, um bando de caras que nunca vimos antes invade uma “igreja” (na verdade, uma salinha com uma cruz e um mini-altar) e perguntam ao Padre onde está a droga deles. O Padre se faz de besta e tenta esconder a droga (na cruz – será uma crítica à Igreja Católica aqui? Naaah!). Eis que é descoberto e atacado pelo grupo. Surge, então, para delírio do macharedo, a Coroinha Gostosa (que mais tarde saberemos que se trata de Sophie), com um AR-15 metendo chumbo no bando de mau-encarados.

Encurralada dentro da salinha, não resta à Sophie nada a não ser saltar pela janela, na cena de dublê mais fajuta da história: não só o dublê não é uma mulher e branca; o dublê é UM HOMEM ASIÁTICO DE BIGODE, MAIS VELHO E MAIS BAIXO do que Sophie. E, Meu Deus, ele é claramente perceptível sem a necessidade de slow-motion.


Coisa que aprendi com Robo Vampire: Coroinhas gostosas viram sujeitos baixinhos e bigodudos ao pular janelas

A Coroinha/Sophie/Sujeito de Bigodes é levada então para uma prisão ou um acampamento, onde é presa e violentada. Também é torturada, com a mais maligna de todas as torturas já exibidas em filmes: a TORTURA DO PINGO. Isso aí! A água fica pingando incessantemente em seu rosto – o que aparentemente é horrível, pois ela fica mexendo a cabeça de um lado para o outro e implorando para que parem.

Enfim, no meio da selva, um soldado americano (acho que é o Glen, se não me perdi no meio de tantos personagens sem nome) fala com um sujeito que nunca apareceu antes sobre Sophie. Não só o sujeito não apareceu antes, como esse sujeito NÃO FAZ PARTE DESSE FILME. Ele está numa locação completamente diferente, com uma iluminação completamente diferente, olhando para um lugar completamente diferente de Glen. De qualquer forma, graças ao Editor sem-nome, ao plano e contra-plano e aos intrépidos dubladores (o filme não tem créditos finais), ele concorda que precisa fazer algo para salvar Sophie. Então, contrata um grupo de mercenários tailandeses liderado por Ryan para dar conta do recado.

No filme número 2, que se passa na Colômbia, o grupo de mercenários tailandeses encontra um sujeito com a mesma tatuagem na mão que segura Sophie na foto que usam como identificação da moça (que foto?). Tiram o sujeito da sua queda-de-braço matinal e fazem com que ele se junte ao grupo. Com o passar do tempo, o sujeito encontra-se tão à vontade com seus novos amigos que até afirma querer vingar-se do seu antigo chefe. Na mesma seqüência, surge também uma garota japa que vai apaixonar-se pelo herói do filme #2, Ray, após ele passar-lhe a irresistível cantada numa cachoeira: “Que bela vista! Você deveria banhar-se mais seguido!”. Garotão!

 


“Que bela vista! Você deveria banhar-se mais seguido!”

No filme #1, Robo/Tom – segundo o argumento no box do DVD – também está atrás de Sophie. Não que ele saiba disso. Em certo momento, o Robo é emboscado pelos traficantes japas, que metem um foguete de napalm nele. Como o napalm só queima numa linha horizontal reta, Tom (isso é, o Robô, não se perca!), resolve esconder-se atrás de um banco de areia. Quando as chamas apagam, ele sai do esconderijo e é surpreendido por um bando de vampiros – que até então estava enterrado na praia. Como o Napalm não funcionou, os sujeitos do filme #2 resolvem detonar Tom com um lança-foguetes. O Robô explode, mostrando para nós que ele não era nada além de um boneco de pano. Mas nem tudo está perdido! De volta ao QG dos americanos, o Robô é novamente reconstruído e sai para a batalha.

Na Colômbia, Ray e o pessoal do filme #2 se depara com uma cidade arrasada após um sujeito não querer dar sua cerveja para um brutamontes armado. O brutamontes armado e seus comparsas também brutamontes e também armados detonam o vilarejo, deixando todos mortos. Na sua passagem pelo local, os heróis do filme #2 deparam-se com um garoto – que prontamente é despachado pelo Sujeito-Fardado-de-Aluno-do-Colégio-Militar, único que viu uma granada nas mãos do menino. Esta cena não faz o minímo sentido e sua importãncia para a história é nula. Mas assim o é todo o resto do filme também!

 

Tremei Murphy!

De volta ao filme #1, nosso amigo Robo/Tom está recuperado e já em busca dos vilões. Ele depara-se com Christine/Fantasma e seu marido Peter/Super-Vampiro/Gorila… fazendo amor. Ou, pelo menos, é o que dizem. Na verdade, eles estão dando saltinhos e esfregando as mãos. Mas, quando são pêgos pelo robozão, Christine implora: “Não nos mate, nós nos amamos! Você pode nos matar quando nosso amor for consumado!”. Peraí, eles já não estão mortos? Quando o amor deles for consumado? Como assim? Tom não tem tempo de pensar nesses assuntos, já que sua memória entrou num processo de flashback, onde ele se lembra de quando seu amor terminou com ele. No flashback, Tom tem a voz do Xerxes (do 300) e sua namorada soa como um robô que apenas repete: “Deixe-me… sozinha…”. O que importa no flashback – ACHO! – é que Tom associa amor à dor, e resolve acabar com os dois amantes do mesmo jeito.

 

Aprenda geografia com Robo Vampire: a Colômbia faz fronteira com a China, e Tóquio é rodeada por florestas sub-tropicais!

Infelizmente, somos cortados para o filme #2, onde nossos personagens parecem estar bem próximos da fronteira entre a Colômbia e a China, já que estão sendo perseguidos pelo Barão da Coca Europeu em pessoa (ele não fazia parte do outro filme? Ah, edição, edição). Em certo momento, Ray faz uso de seu magnífico .38 e mata, com um só tiro, três bandidões. Então ele pega sua namorada japa e pula para dentro de um periférico, por onde finalmente cruza a fronteira. Isso faz com que esqueçamos do ridículo da cena anterior onde, resumindo, uma fantasma e seu amante vampiro-gorila pediram a um robô caçador de traficantes que não os matassem antes de terminarem sua trepada.

Repetindo:

NA CENA ANTERIOR, UMA FANTASMA E SEU AMANTE VAMPIRO-GORILA CHINÊS PEDIRAM AO ROBÔ CAÇADOR DE TRAFICANTES QUE NÃO OS MATASSEM ANTES DELES TERMINAREM SUA TREPADA!

Mais uma vez:

NA CENA ANTERIOR, UMA FANTASMA E SEU AMANTE VAMPIRO-GORILA CHINÊS PEDIRAM AO ROBÔ CAÇADOR DE TRAFICANTES QUE NÃO OS MATASSEM ANTES DELES TERMINAREM SUA TREPADA!

Sacou?

Por óbvios caprichos de edição, o pessoal do filme #2 vai parar no acampamento/prisão onde Sophie está presa. Logo eles encontram-se também precisando de ajuda, mas logo a recebem e dão um jeito de quebrar todo mundo. Eles soltam Sophie e a livram das garras do Chinês-Canastrão que a mantinha em cativeiro, e então estão prontos para deixar o filme para sempre.

Corta para o Robo/Tom dando um rolê por Tóquio (TÓQUIO?) à procura de traficantes japas para meter bala. Ele depara-se com Christine e Peter, que parecem ter esquecido ou consumado seu ato sexual, pois estão prontos para rasgar o papel alumínio do robozão. Eles recebem a ajuda de mais alguns vampiros (e do Pai norte-americano, o “Racing”!), e dão uma sova em Tom, que de alguma maneira consegue se livrar de todos – menos Peter, o Super-Vampiro com a cara do Dr. Gori. Começa então a cena de perseguição mais rídicula da história, já que Peter – que vai na frente – apenas pula e Tom – que vai atrás – caminha feito o Robocop Gay. Em algum momento da perseguição, em alguma ponte de Tóquio, Peter depara-se com um bando de turistas ocidentais e pega alguns dele como reféns.

 

A fantasminha finalmente fica nua para encarar o sacerdote taoísta!

Dr. Moreau/Sacerdote Taoísta, que há tempos não dava as caras, aparece para o acerto de contas com Christine, que finalmente fica com os seios completamente à mostra. Com um dedinho, o Sacerdote derruba Christine/Fantasma Nua no chão, que começa a ter um ataque de risos e morre. De novo.

(Não me perguntem como acaba o seqüestro, porque eu não sei).

 

O robozão e seu lança-chamas!

Então Tom/Robô é encurralado (novamente) no meio de Tóquio pelos vampiros e o Sacerdote. Há o confronto final entre Tom e Peter, que dura 20 segundos, e resume-se numa patética seqüência de Peter/Super-Vampiro levantando os dedos e atirando fogos-de-artifício sem resultado seis vezes seguidas. Percebendo que sua maior criação está fraca, o Sacerdote começa a orar por ajuda, quando é atacado por Christine/Fantasma Seminua (vestida de novo!), que voltou dos mortos mais uma vez para vingar-se. O cara morre e então algo explode, e Robô/Tom percebe que sua arma não é um fuzil, mas sim um lança-chamas (!), e bota fogo em tudo.

THE END.


Aleluia, irmãos!

Vocês notaram que o filme acaba com várias perguntas em aberto? Pois bem. Já que o filme TINHA que ter 90 minutos (e tem, cravados), e eram dois filmes, o jeito foi usar um pouquinho de cada. O que aconteceu com o barão da coca? E Sophie? O grupo de mercenários? Afinal, que diabos aconteceu no filme? Quando vi Robo Vampire pela primeira vez, em 2003, junto do meu tio, tive a clara sensação de que se tratava de um filme único. Na época não entendia inglês muito bem, e fiquei realmente confuso no meio de tanta coisa acontecendo. Por algum motivo muito estúpido (chamado cerveja), também não havia me dado conta de que se tratava de dois filmes misturados. Isto ficou muito mais claro agora. Continuo com uma certeza: Robo Vampire, do jeito que está, é o pior filme do mundo! O filme não apenas é mau atuado, como em nenhum momento nós temos noção da onde se passa a ação, quanto tempo decorreu desde dado fato, quem são os mais de trinta personagens que povoam a tela, etc. Aliás, Livingstone, se você quer que tenhamos pena pelo personagem principal, Tom, faça-o aparecer em cena mais do que uma frase antes de matá-lo!

Na verdade, “Joe Livingstone” é uma das tantas alcunhas de GODFREY HO (Chi Kueng Ho), o mestre dos filmes Z de Hong Kong. Especialista na técnica de “copiar-e-colar”, Godfrey normalmente filma uma produção, utilizando atores caucasianos, e depois mistura estas cenas com vários outros filmes, tentando fazer com que eles se tornem uma história coerente através da dublagem. Normalmente, os filmes utilizados como inserção são produções asiáticas (chinesas, tailandesas ou filipinas) não-finalizadas ou antigas. Desta forma, ele faz quatro ou cinco filmes (bombas) do orçamento de um(a). Atualmente, ele dá aulas de cinema na Hong Kong Film Academy. (Leia três vezes a última frase).

NOTA: starinvertida.jpgstarinvertida.jpgstarinvertida.jpgstarinvertida.jpgstarinvertida.jpgstarinvertida.jpgstarinvertida.jpgstarinvertida.jpgstarinvertida.jpgstarinvertida.jpg
(Como filmes B tem suas cotações invertidas, e Robo Vampire são dois filmes juntos, sua nota foi duplicada. Sim, ele conseguiu duas vezes a nota máxima! Isto é, 5 + 5 com louvor!)
Este post foi originalmente publicado no meu antigo blog, Cabeça de Película. Com alterações.

 

The Lost Empire (1985)

25 março, 2008

Gênero: Filme B de artes marciais
Tempo de Duração: 83 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1985
Estúdio: Harwood Pictures
Direção: Jim Wynorski
Roteiro: Jim Wynorski
Produção: Raven De La Croix
Música: Alan Howarth
Direção de Fotografia: Jacques Haitkin
Efeitos: Ernest D. Farino
Edição: Larry Bock

Elenco:
Melanie Vincz (Angel Wolfe)
Raven De La Croix (Whitestar)
Angela Aames (Heather)
Paul Coufos (Rick)

RESENHA: Após o policial Rob Wolfe ser morto enquanto tentava parar uma gangue de ninjas de assaltar uma joalheria, sua irmã, a policial Angel Wolfe, decide vingar sua morte. Sua investigação leva ao misterioso Dr. Sin Do, que supostamente é assessorado pelo necromante mago Lee Chuck. O doutor está promovendo um concurso de artes marciais no seu forte secreto. Lá, Angel, após juntar-se com duas amigas lutadoras (Raven e Angela), entra no torneio a fim de dar umas porradas em Sin Do em nome do seu irmão.

Depois de ler o argumento acima, você se pergunta: “Diabos, onde está o Império do título?”. Seguinte: para aumentar a enrolação, existe uma história sobre a Lemúria antiga, onde todo o poder desta incrível civilização perdida foi colocada em duas orbes que, se juntadas novamente, podem dar o poder do mundo para quem as possuir. Onde isso se encaixa no roteiro? Em algum lugar entre as intenções de Sin Do (excelente nome, não acharam?) e Lee Chuck (que não sejam curtir garotas semi-nuas lutando).

As “atrizes” são três gostosas peitudas, que usam pouca roupa e atiram frases extremamente não-convicentes. Uma delas merece ser citada: Raven Delacroix, a esquecida bimbo do Up! de Russ Meyer, como a “índia” Whitestar. O filme é produzido sua e ela aparece em nu frontal no finalzinho. Outro que merece ser lembrando é Angus Scrimm, o malvadão Sin Do, da série Phantasm. Mas o destaque vai mesmo para Paul Coufos, como o interesse romântico de Wolfe, Rick. Cara, o bigodinho canastrão não deixa ninguém ter dúvida de que se trata de um belo exemplar do cinema B.

“Quietas, isto não é um piquenique!” (tradução literal!)

A primeira aparição de Wolfe é clássica: ela aparece toda de preto, do capacete aos coturnos, pilotando furiosamente uma Kawasaki. Invade um jardim de infância onde crianças são mantidas reféns pelo grupo de ladrões mais imbecis dos filmes B e detona todo mundo. Obviamente que ela teve a “ajudinha” de um dos ladrões, que resolveu desafiá-la com canivete enquanto ela exibia seu .38 (!). Outras cenas memoráveis incluem a “conjuração” de Whitestar (Raven), surgida no meio de uma aldeia indígena; a luta na prisão de Heather (Angel) contra uma detenta que não se veste com o uniforme do encarceiramento (ela tá mais para uma S&M Queen do que prisioneira); Paul Coufos sendo “assediado” por dois gays caricatos; e a cena inicial, onde um velhinho chinês fica cuidando os peitos da sua cliente sem perceber que sua loja está lotada de ninjas com intenções no mínimo duvidosas.

O diretor, Jim Wynorski, é mais um dos realizadores com a tradição de se esconder atrás de pseudônimos devido à quantidade de porcarias que fazem. Assim, ele é conhecido também como H.R. Blueberry, Harold Blueberry, Bob E. Brown, Daniel Fast, David Gibbs, Heny Henri, Noble Henri, Nobel Henry, Noble Henry, Tom Popatopolous, Arch Stanton, Jamie Wagner, Thaddeus Wickwire e, mais frequentemente, Jay Andrews. Somente assim ele foi capaz de dirigir 68 filmes, segundo o IMDB, e continuar na ativa, com diversas produções direto para vídeo e TV. Atualmente, finalizou The Breastford Wives (sim, Breadford Wives versão sexploitation, hooray!), filme que estou verdadeiramente ansioso para ver!

Num filme destes não poderia faltar uma aranha-robô, poderia?

O certo é que Jim Wynorski bebeu da fonte de Ed Wood para fazer um exploitation estupidamente estúpido! Todas as coisas realmente (des)agradáveis que você poderia esperar de um filme B estão lá: péssima atuação, roteiro cheio de balões, figurinos esdruxúlos, decoração de set precária e efeitos “especiais” ruins até mesmo pra época. O mais bacana é que o filme faz o favor de não se levar a sério em nenhum momento (o que faz dele, apesar de possuir a mesma premissa de muitos filmes do Van Damme, bem mais “assistível” que os filmes do dito cujo). Como a intenção do filme é ser um filme B com mulheres gostosas em roupas sumárias lutando, considero-a inteiramente cumprida!

Enfim, qualquer filme que tenha frases do tipo “Se você for à escola, punk, melhor aprender a contar” merece ser posto em um altar e reverenciado simplesmente por ter sido filmado. Um sério concorrente para o título de PIOR filme de todos os tempos. É sem sentido e estúpido, mas também é divertido, ágil e repleto de belas garotas com pouca – ou nenhuma – roupa. Uma bela maneira de se perder uma tarde!

FRASE FAVORITA: “Eu odeio aranhas-robôs”

NOTA: starinvertida.jpgstarinvertida.jpgstarinvertida.jpgstarinvertida.jpg
(filmes B têm suas cotações invertidas!)
Este post foi originalmente publicado no meu antigo blog, Cabeça de Película. Com alterações.

Prisioners of the Lost Universe (1983)

24 março, 2008

Gênero: Filme B de ficção científica
Tempo de Duração: 94 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1983
Direção: Terry Marcel
Roteiro: Terry Marcel
Produção: John Hardy
Música: Harry Robertson
Direção de Fotografia: Derek V. Browne
Efeitos: Ray Hanson
Edição: Alan Jones

Elenco:
Richard Hatch (Dan)
John Saxon (Kleen)
Kay Lenz (Carrie)
Peter O’Farrell (Malachi)
Ray Charleson (The Greenman)

RESENHA: Uma jornalista mal-comida, após presenciar o teste de um teletransporte de um cientista maluco, vai parar numa outra dimensão. Acompanhada de um eletricista lutador de kendô, ela é capturada por um violento rei (John Saxon), que planeja fazer dela uma escrava. O eletricista, Dan, reúne-se com várias criaturas fantásticas (um elfo verde, um anão ladrão e um… um.. homem-bicho) para salvá-la das garras do malvadão. Há de se convir que existe uma certa criatividade na história, e uma certa inteligência em algumas partes. Mas prestem atenção no seguinte: um cientista maluco (assim chamado no próprio filme, caso existam dúvidas) testa seu teletransporte durante uma série de terremotos na Califórnia. Com certeza haverá um acidente, não? Para completar, é preciso de alguma maneira inserir o herói na história. Como? Bem, fazendo ele se acidentar no trânsito com a mocinha, então ele fica a pé e acaba indo parar na única casa das redondezas – a do cientista maluco, claro! Durante o desenrolar da história, a quantidade de “confusões” que Richard Hatch se mete atrapalha o desenrolar mas, acreditem!, já vi coisas muito piores.

Key Lenz prova que é uma garota difícil

É uma puta sacanagem falar em “linguagem cinematográfica” em filmes como este. Terry Marcel até consegue umas cenas bacaninhas mas, no geral o filme todo se parece muito igual. Tem o jeitão dos filmes da Sessão da tarde: ângulos tradicionais, figurinos bagaceiros, edição de som ruim pacas e uma trilha sonora de gosto, no mínimo, duvidoso. De positivo é a mesma “sobriedade” de Marcel, que não sai colocando a câmera em todos os lugares possíveis, evitando assim uma confusão pros incautos que gastam seu tempo assistindo este “filme”.

Charleson: “o que estou fazendo aqui pintado de verde?”

Apesar de John Saxon ter um currículo considerável (A Nightmare On Elm Street, From Dusk till Dawn), o seu personagem (Kleel) é o mais “vazio” de todo o elenco. Às vezes ele é um durão filho de uma puta com mania de grandeza que fala na terceira pessoa, outras horas ele é um inteligente arquiteto do Caos (sim, com “c” maiúsculo para provar a breguice). Kay Lenz interpreta uma jornalista mal-comida com certa desenvoltura (apesar de duvidar serem essas as intenções originais da personagem) e Rich Hatch (o Capitão Apollo de Battlestar Galactica em pessoa) mostra todos seus dotes como um eletricista também lutador de kendô (uma solução muito perspicaz para o roteiro, admitam). Peter O’Farrell como Malachi, o anão, e Ray Charleson, o elfo verde, também são convicentes nos seus papéis – mesmo que eles sejam não sejam nem um pouco críveis.

Rich Hatch lamenta o fim de Battlestar Galactica

A premissa é batida, as soluções do roteiro são tosconas, o visual é datado mas… eu me diverti pacas. As atuações são convicentes, mesmo os personagens sendo vazios (no caso do Elfo Verde), escrachados (Malachi), exagerados (a jornalista mal-comida) e contraditórios (Kleel). O problema é que fazer um filme desses em 1983, na Grã-Bretanha, não era muito promissor. No mais, entre Eragon e Prisioners of the Lost Universe, ficamos com o último!

Atenção para a cena “Peter Jackson atolado na lama”!

Para provar que todo o filme tem o seu quê de didatismo, eis o que aprendi com esta obra: na Califórnia, os residentes dirigem carros com a direção na direita (como os ingleses); cavalos selvagens são encontrados na natureza com selas e prontos para serem montados; e, caso você tenha sede durante uma visita campestre, você pode enfiar um canudinho no solo e chupar até sair água!

FRASE FAVORITA: “Eu não confio nele! Ele é… verde!”

NOTA: starinvertida.jpgstarinvertida.jpgstarinvertida.jpg
(filmes B têm suas cotações invertidas!)
Este post foi originalmente publicado no meu antigo blog, Cabeça de Película. Com alterações.

I Am Legend (2007)

23 março, 2008

 

Legend

Gênero: Ficção científica de terror
Tempo de Duração: 100 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2007
Estúdio: Warner Bros.
Orçamento: $150 milhões
Direção: Francis Lawrence
Roteiro: Akiva Goldsman e Mark Protosevich
Produção: Akiva Goldsman
Música: James Newton Howard
Direção de Fotografia: Andrew Lesnie
Efeitos: Quantum Creation FX e Tatopoulos Studios
Edição: Wayne Wahrman

Elenco
Will Smith (Robert Neville)
Alice Braga (Anna)
Charlie Tahan (Ethan)
Dash Mihok (Homem Alfa)

RESENHA: O primeiro plano geral que temos de Eu Sou a Lenda já impressiona: a cosmopolita Nova Iorque completamente deserta, prestes a virar uma floresta. Quase um deserto, o entulho deixado pelos já fantasmagóricos humanos tomam conta da outrora “capital do mundo”. Trovejando por este cenário desolado, está Robert Neville dentro de um rápido automóvel, ansioso para encontrar, entre os novos habitantes da metrópole, um que lhe sirva de comida. Convincente.

A história do filme se passa em 2012, três anos depois de uma doutora criar uma mutação do vírus da rubéola que se mostrou eficaz na cura do câncer. Porém, o vírus mutou novamente para algo mortal: um vírus semelhante à raiva, que matou 90% e transformou 9% em criaturas agressivas, sedentas por sangue e com forte rejeição aos raios ultravioletas – o que os força a habitarem locais escuros e só saírem à noite. Encarregado, ainda na época do início do contágio, a descobrir uma cura está o cientista militar Robert Neville (Smith), que ainda não desistiu de sua missão. Pertencente ao 1% da população que é milagrosamente imune ao vírus, Neville é o último habitante de Nova Iorque. Ele e sua cadela Sam.

A premissa de Eu Sou a Lenda é simples e eficaz. Baseado no romance de um dos bastiões da ficção científica norte-americana, Richard Matheson, o livro já foi adaptado outras duas vezes para o cinema: em The Last Man on Earth (1964 – dizem que Romero tirou a idéia para seus zumbis daí) e Omega Man (1971, com Charlton Heston no papel principal). Confesso que não vi as duas versões anteriores tampouco li o livro e que, talvez por isso, meu julgamento desta versão realizada por Francis Lawrence seja afetado. Basicamente por que gostei do filme. Estraçalhado pela crítica, que pareceu se preocupar mais nas hipóteses científicas do que no conteúdo humano da fita (1 – filmes são filmes; e 2 – filmes de terror são sobre pessoas), Eu Sou a Lenda acabou não emplacando muito nos EUA, mas detonou mundo afora (quase meio bilhão em bilheteria). Bom para nós, ruim pros gringos…

O que funciona? Basicamente, quando se tem um bom diretor e um bom ator principal, o resto deixa de ser essencial. Quando a isso se juntam um bom roteiro, bons efeitos e algumas indagações interessantes, é criado um hit. É mérito de Lawrence a tensão criada na primeira cena em que somos apresentados aos monstrengos – Lawrence sabe manter nossa adrenalina lá no alto postergando ao máximo a aparição deles. Quase sentimos a respiração ofegante e o medo inebriante que sente Neville enquanto procura o seu cãozinho. E, se como certo crítico você está achando ridículo um cara durão arriscar a própria vida atrás de seu animal de estimação, vá fazer a lição de casa e assistir à Alien – O Oitavo Passageiro. Além do mais, Sam é o único ser vivo que impede Neville de ficar biruta e conversar com bonecos – ponto provado mais adiante no filme.

É mérito de Smith a empatia criada quase que instantaneamente com seu personagem. Ao contrário do personagem principal de 30 Dias de Noite, Eben Oleson, aqui somos levados a nos preocupar pela segurança de Neville. E seu background está lá na medida certa, mesmo que boa parte dele pouco acessível (eu disse que ele fora encarregado de descobrir um antídoto? Hm, eu intui isso). Que é mérito de um bom roteiro, aqui obra de Akiva Goldsman. O roteirista de Uma mente brilhante acerta a mão em buscar referências dentro do mundo pop para expressar a solidão e a missão de Neville (belas referências em Bob Marley e no diálogo de Shrek dublado por Neville). E, se decepciona em algo, é nos efeitos especiais: mas não por serem ruins (longe disso). Como um fanboy oldschool de terror, esperava ver protéticos e maquiagens pesadas nos monstrengos. Porém, o diretor Lawrence não gostou dos testes de maquiagem e resolveu fazer tudo em CG. O resultado é convincente.

Quanto às indagações, atentem para algumas falas depois da aparição da personagem de Alice Braga na tela. Mesmo que diluído na roupagem cool de um filme pop, a indagação sobre Deus é interessante. Afinal, nossas atuais (e futuras) experiências com engenharia genética não é nada mais do que meter o bedelho onde não fomos chamados? “Deus não fez nada disso, fomos nós que fizemos”, diz um estressado Neville a certa altura. A fé cega de Anna (Alice Braga, fraca, mas não comprometedora) em um Deus que o destino controla é o antípoda da busca racional e cheia de culpa de Neville, que é ele mesmo prisioneiro do próprio destino.

Talvez você não tenha visto nada disso. Tudo bem, eu vi e gostei. Recomendo!

P.S: Alguém mais reparou no símbolo de Batman & Superman logo no fim da primeira seqüência do filme? Será que a WB está preparando um filme com seus dois maiores heróis até 2012???

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30 Days of Night (2007)

22 março, 2008

 

30 days de noite

Gênero: Terror de Vampiros
Tempo de Duração: 113 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2007
Estúdio: Columbia Pictures
Orçamento: $32 milhões
Direção: David Slade
Roteiro: Steve Niles & Stuart Beattie
Produção: Sam Raimi e Ted Adams
Música: Brian Reitzell
Direção de Fotografia: Jo Willems
Efeitos: Weta Digital
Edição: Art Jones

Elenco
Josh Hartnett (Sheriff Eben Oleson)
Melissa George (Stella Oleson)
Danny Huston (Marlow)
Mark Rendall (Jake)
Ben Foster (Estranho)
Abbey-May Wakefield (Vampirinha)

RESENHA: Em processo de produção desde o lançamento da minissérie em quadrinhos original, em 2002, 30 Dias de Noite foi desde o início pensado no formato de filme. Deparando com o descaso dos produtores, Steve Niles adaptou sua história para os quadrinhos, onde chamou a atenção da crítica especializada. Encabeçando a produção está Sam Raimi, da colossal trilogia Evil Dead, portanto nome mais do que tarimbado para levar essa terrorífica história para as telonas. E horror é o que se vê: volta e meia, um machado é usado para separar do corpo a cabeça de um chupador de sangue. Volta e meia, somos presenteados com cenas de um vampiro mastigando a jugular de inocentes feito um feroz predador. Tudo com uma plasticidade de imagem impressionante, que nos remete às últimas adaptações de histórias em quadrinho para o cinema, tais como Sin City (2006) e 300 (2007).

Destacando-se como um dos grandes atores de sua geração, Josh Harnett dá vigor ao seu personagem, o xerife Eben Oleson. Ainda que rejeitado pela esposa Stella (a bela Melissa George, de Alias), Eben mostra-se dotado de um apurado senso de dever com os seus – sua família, composta pela ex-mulher, o irmão Jake e a avó Helen. De certa forma, ao apresentar esta unidade familiar integrada – todos da família ligados à autoridade – apreciamos a vida de uma cidadezinha normal norte-americana, que tem como singularidade o fato de, no alto inverno, passar trinta dias às escuras. Mesmo assim, as semelhanças com a Barrow real são poucas ou quase nenhuma – são 67 dias de noite, e não 30, e a maior parte da população é composta por esquimós, e não brancos.

No último dia de sol em Barrow, o xerife Eben é chamado por toda a cidadezinha para atender a estranhas ocorrências. Num canil, cachorros são degolados impiedosamente. Nos arredores da cidade, celulares são carbonizados. Há uma morte violenta, com a posterior cabeça do morto cravada numa barra de ferro e há um estranho estrangeiro que não aceita ordens de ninguém (Ben Foster, como sempre excelente), o que acaba o levando à prisão. Assim que a noite se instala e todas as conexões com Barrow são cortadas devido ao inverno rigoroso, a matança tem início. Os vampiros, liderados por Marlow (Danny Huston, filho do ator/diretor John Huston), transformam as ruas da cidade num banho de sangue, divertindo-se com suas presas que não têm para onde ir nem como se esconder.

Com unhas compridas, dentes apodrecidos e falando uma língua anciã e gutural, os vampiros lembram um monte Max Schreck e seu Nosferatu. Mas, ao contrário deste, faltam-lhe o assombro: são vampiros que mais parecem zumbis, todos sujos de sangue e com roupas esfarrapadas. Nada da elegância de um Drácula ou as boas maneiras e o instinto reprimido de um Nosferatu. Aqui os vampiros (zumbis) são verdadeiros carniceiros a fim de explodir todos os humanos que vêem pela frente. Acontece que o conceito de ‘máscara’ batizado por Mark Reinhagen, mas já presente nas histórias vampirescas desde Bram Stoker, em 30 Dias de Noite é esquecido de forma quase ingênua – quando se dão conta da burrada, de terem se revelado para os humanos sem pudor, os vampiros ficam nervosos.

Há algumas outras incongruências na fita: a falta de localização no tempo atrapalha. A população, que no primeiro dia de escuridão é de 152 pessoas, é rapidamente assassinada logo nas duas primeiras noites. O que deixariam os vampirinhos famintos pelos próximos 28 dias. Ou não? Isso é difícil de saber. Se mantivessem a discrição, os vampiros agiriam mais de acordo com seu passado filmográfico, mas o efeito visual perderia bastante… Quanto à direção, às vezes parece um tanto solta: talvez pela ansiedade de começar com a nojeira logo, sem se preocupar em apresentar muito os personagens, mas nossa empatia por Eben e Stella demora a engrenar. As pretensas cenas de tensão ou de susto são no geral fracas – ou rápidas de mais, ou sem música para apoio, ou sem trabalho de criação de ambiente. No geral, acaba lembrando mais um filme de ação com terror do que propriamente um filme de horror. Algo como Fantasmas de Marte de John Carpenter, porém menos angustiante. Poderia ter sido melhor.

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No Country for Old Men (2007)

13 março, 2008

 

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Gênero: Drama
Tempo de Duração: 122 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2007
Estúdio: Miramax
Direção: Joel & Ethan Coen *Oscar de Melhor Direção e Melhor Filme*
Roteiro: Joel & Ethan Coen sobre romance de Cormac McCarthy *Oscar de Melhor Roteiro Adaptado*
Produção: Scott Rudin e Joel & Ethan Coen
Música: Carter Burwell
Direção de Fotografia: Roger Deakins
Edição: Joel & Ethan Coen
Orçamento: $25 milhões

Elenco
Josh Brolin (Llewellyn Moss)
Tommy Lee Jones (Ed Tom Bell)
Javier Bardem (Anton Chigurh) *Oscar de Melhor Ator Coadjuvante*
Kelly Macdonald (Carla Jean Moss)
Woody Harrelson (Carson Wells)

RESENHA: No mínimo, causa estranheza o fato de o vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2008 ter sido um filme tão anti-convencional. Seriam sinais dos novos tempos? De que – como sustentam alguns – os integrantes da Academia já não são mais velhos arcaicos, mas jovens velhos que cresceram influenciados pela estética e pelos efeitos de Star Wars? Talvez sim, talvez não. O fato é que, a rigor, Onde os fracos não têm vez é um exercício impecável de inventividade cinematográfica numa época de vacas magras e pouco imaginativas. Chama atenção pelo seu desalinho com a forma industrial hollywoodiana: a ausência de trilha sonora, a inconsistência das histórias de vida dos personagens, a falta de romance, a crueza e objetividade das ações humanas, o final anticlímax e a ausência de estilização da violência. O filme não é violento como clamam muitos; ele é cru – enquanto filmes de ação como Duro de Matar 4.0 são recheados de uma violência “de mentirinha”, Onde os fracos… entrega uma violência tão real quanto possível. Talvez por isso doa mais.

Ao romperem com preceitos que deixariam Syd Field constrangido, os irmãos Coen entregam um roteiro incompleto que subverte a função do espectador, ao fazê-lo tomar parte do processo narrativo e preencher as lacunas propositalmente deixadas para trás. Com personagens sem passado e sem futuro – e muitos sem presente – os Coen derrubam a idéia de que é necessário um flashback bem construído e/ou um background intelegível para que as personas de mentirinha se façam compreender. Por exemplo, só no ponto alto do filme ficamos sabendo um pouco da história pregressa de um dos personagens principais, Llewelyn Moss (Josh Brolin), e, mesmo assim, o que sabemos não é muito. Também não precisamos, pois entendemos sua motivação desde o início, história pregressa conhecida ou não, simplesmente pelo fato de que agiríamos da mesma forma que ele. Outro personagem não explicado atende pelo nome de Carson Wells (Woody Harrelson). Quem é Carson? Um assassino profissional ou um “limpador de sujeira alheia”? Estas são perguntas dispensáveis: no momento em que entra na história até o seu trágico desfecho (Carson participa de três cenas), pouco sabemos dele, porém entendemos para quem ele trabalha e qual é a sua função dentro da história que está sendo contada. Isso basta.

Agora, nenhuma personagem é tão desprovida de propósito e ainda assim tão perfeita na sua idiossincrasia do que Anton Chigurh (Javier Bardem). É – de cara – o vilão mais apavorante da história do cinema pelo simples fato de não possuir um passado. Enquanto que Jason, Freddy e Myers são todos providos de ações pregressas que explicam (ou justificam) suas ações doentias e violentas, Chigurh age como uma força da natureza. Ele mata, mas não por vingança e/ou rebeldia contra a humanidade, não mata por simples prazer, não mata pelo sentimento de se sentir senhor da vida de outrem, não mata pelo dinheiro. Não; Chigurh mata porque este é o seu desígnio. Ele é dotado de papel divino. Anton cumpre sua função no desolado deserto do sul dos Estados Unidos: como um anjo da morte que pune os mortais e sua moral relativa. E é isso que o torna indecifrável para o Xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), cuja violência e brutalidade são tão espantosas que Ed passa a se considerar um policial ultrapassado pela própria humanidade.

O personagem de Jones, Ed Tom, é na realidade um sujeito que se deixou impregnar pela própria vaidade. Num dos célebres diálogos do filme, Ed Tom vai visitar o seu tio Ellis (Barry Corbin), também um ex-policial, confinado a uma cadeira de rodas depois de um tiro na espinha. A função de Ellis é essencial para o filme: a violência não é maior na atualidade do que na época em que Ellis era um policial ou – como na história em que ele conta – quando um parente faleceu no longínquo ano de 1909, vítima de um assassinato à mão armada. Ellis acusa Ed Tom de “inocência” ao pensar que poderia mudar uma região que sempre foi violenta e, ao fundo, que poderia mudar a natureza humana de ser violento.

Completando o filme, quando Ed Tom aposenta-se da força após falhar em compreender sua função como “protetor da lei” – confundida por ele como “mantenedor da paz”, duas coisas distintas – e após impressionar-se com a brutalidade funcional de Chigurh, dois sonhos que impregnam de significado o título original do filme (a tradução correta seria “onde os velhos não têm vez”). Ao admitir que ao sonhar com seu pai ex-policial este sempre tem na casa dos vintes anos, Ed Tom conclui ser ele o idoso na relação pai-filho (logo, protetor-protegido). Assim, declara sua impotência perante o mundo – ainda mais quando, no sonho, perde o dinheiro que seu pai lhe deu. Essa impotência que advém com a idade Ed Tom deixa mais clara no segundo sonho: ele e o pai (aparentando ser quarenta anos mais novo do que ele) cavalgam lado a lado até que o pai corre à frente para preparar uma fogueira contra todas as adversidades daquele ambiente (o frio, o vento, a escuridão). É quando Ed Tom percebe que seu pai tem uma força de vontade muito maior que a sua. Como um velho, tudo o que resta para o ex-xerife Ed Tom Bell é quedar-se inutilmente dentro de sua própria casa onde, talvez, um velho ainda tenha vez.

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Tropa de Elite (2007)

13 março, 2008
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Gênero: Ação
Tempo de Duração: 118 minutos
Ano de Lançamento (BRA): 2007
Estúdio: Zazen Produções
Direção: José Padilha
Roteiro: José Padilha e Bráulio Mantovani
Produção: Eduardo Costantini, James D’Arcy, José Padilha, Marcos Prado, Eliane Soárez
Música: Pedro Bromfman
Direção de Fotografia: Lula Carvalho
Edição: Daniel Rezende

Elenco
Wagner Moura (Capitão Nascimento)
Caio Junqueira (Neto)
André Ramiro (André Matias)
Fernanda Machado (Maria)
Fernanda de Freitas (Roberta)
Fábio Lago (Baiano)

RESENHA: É sem saber se é no diretor ou na Imprensa que coloco a culpa pelas interpretações equivocadas sobre Tropa de Elite que inicio esta resenha. Declarado por parte da imprensa “especializada” brasileira como um filme-tese apologético da truculência policial e da criminalização do usuário de drogas, Tropa de Elite foi assim rechaçado pelos críticos de esquerda. Já os de direita, apesar de aplaudirem as ações do Bope, sentiram-se incomodados pelo fato da classe média alta ser tachada como a principal causadora da violência nos morros. Todos estes elementos fazem parte do discurso do filme. E a sua incapacidade de situar-se à esquerda ou à direita da política o faz um filme sem discurso pronto, quiçá sem discurso algum.

É isso o que diz pretender o diretor, José Padilha. “Tentar explicar o ponto de vista não é a mesma coisa que tentar justificar”, diz. O que pode gerar incompreensão é o fato de o filme ser narrado pelo ponto de vista de um personagem que é “caveira” até os ossos: o Capitão Nascimento (Wagner Moura, sensacional). O que Nascimento percebe é a ruína que as noites de operações de guerra no morro trazem para sua vida particular, ainda mais agora que sua esposa espera um filho. Estressado e nervoso, recebe dos seus chefes a missão de escolher e treinar um substituto. É aí que entram os dois personagens que são mais explorados dentro do filme: o intelectual Matias (André Ramiro) e o inconseqüente Neto (Caio Junqueira).

Alguns parênteses antes de prosseguir. O Bope é um batalhão criado no final da década de 1970 com o intuito (publicamente não-declarado) de entrar na guerra do tráfico, objetivando a apreensão do armamento militar sob custódia dos traficantes. É uma polícia independente da BM carioca e, por isso e pelo rígido treinamento, tido como um grupo incorruptível formado por quase 400 PMs. É considerada o melhor grupo de operações táticas urbanas do mundo. O filme de Padilha, autor do ótimo documentário Ônibus 174, é baseado no livro Elite da Tropa, de André Batista, Rodrigo Pimentel (ex-BOPE) e Luís Eduardo Soares, onde são mesclados depoimentos do ex-policial com análises sociológicas do tráfico carioca.

Voltando: o filme inicia com uma subtrama que será desenvolvida posteriormente. A ação se passa na favela da Babilônia, onde os “aspiras” Neto e Matias se metem numa encrenca e são resgatados pelo grupo do Capitão Nascimento. Apesar de dar indícios de que aquilo se trata de um flashback que será retomado no final do filme, a subtrama surpreende quando reaparece lá pela metade. É a mão do roteiro enxuto de Padilha e Bráulio Mantovani se fazendo valer. Construído como um bom filme de ação norte-americano (contando com a ajuda de Phil Nelson, coordenador de dublês de Falcão Negro em perigo), Tropa de Elite impressiona pela qualidade da ação e a capacidade (até então discutida) do cinema brasileiro em realizar bons filmes de gênero fora do drama, do romance e do erótico.

Após passar a primeira hora exibindo (e não explorando) o drama pessoal de Nascimento e situando Matias e Neto, os aspirantes honestos e visionários, dentro da força policial corrupta carioca, o filme passa para um segundo momento onde estes três personagens se encontram. O impetuoso Neto sonha em ser um PM e combater o tráfico, ajudando a “gente honesta” das favelas e da cidade. Enfada-se com a função a qual é designado: supervisionar os mecânicos do corrupto pelotão do Capitão Oliveira. Já Matias, pobre e negro, matricula-se na faculdade (pública?) de direito, pois acredita que a carreira como advogado criminal é harmoniosa com a de policial. Sente-se deslocado ao se deparar com as críticas dos colegas sem embasamento (muitas vezes apenas baseada na mídia) sobre a truculência policial, a criminalização de suspeitos, a violência contra gente simples da favela e gente rica dos bairros nobres. Ao expor sua visão de mundo, Matias arrisca-se a ser deixado de lado pelos colegas – quase todos ricos, usuários de drogas e hipocritamente metidos em causas sociais que na verdade são uma maneira de aplacar o sentimento de culpa que os corrói.

A crítica do filme é pesada com essa elite pseudo-intelectual brasileira que se espalha não só pelo Rio de Janeiro, mas também por São Paulo, Porto Alegre e outras cidades brasileiras. Como diz Nascimento, “o que me deixa puto é cara que tem chance na vida e escolhe o lado errado”. Visão essa que é acentuada quando Matias, após o assassinato de dois estudantes pelos traficantes, interrompe uma passeata dos jovens ricos contra a violência, criticando que, quando policial ou favelado morre, ninguém faz caminhada. Matias cai “quebrando” os playboys, num argumento quase explícito de que são eles que financiam o tráfico e o seu subproduto, a violência. É uma visão simplista de mundo – mas é a visão da polícia, não do diretor, e confundi-las é outro erro repetidamente cometido pelos “críticos” de cinema dos grandes meios. Porém, ao mesmo tempo em que declaradamente ambíguo quanto ao discurso, Padilha premia com raccords oníricos e bela iluminação as cenas de tortura.

Talvez seja o maior mérito do filme do Padilha provar que é possível fazer um filme de ação policial com a “cor local” brasileira. Temática existe: o tráfico dá pano de fundo suficiente para explorá-lo em inúmeras películas, tanto do ponto de vista dos bandidos quanto dos policiais. O discurso é condenável, tendo ele sido criado voluntária ou involuntariamente pelo diretor (Padilha diz que foi involuntário, o que o tornaria um péssimo cineasta e eu particularmente duvido disso). Porém, serve para revelar um fato triste da realidade brasileira: existem entre nós aqueles que encontram na violência a justificativa para os problemas sociais do país. Mais fascistas impossível.

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