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Resenha> Abusado, de Caco Barcellos

16 Março, 2008

 

Abusado

 

BARCELLOS, CACO. Abusado: o dono do Morro Dona Marta. 9ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2004. R$ 55,00 em média.

As duas primeiras partes de Abusado, Tempos de Viver e Tempos de Morrer, biografam o traficante carioca Juliano VP (pseudônimo de Marcinho VP) de forma romanceada. Através da rigorosa série de entrevistas que Caco impôs durante anos, o livro aborda desde a infância até a morte de um dos maiores chefões do crime organizado brasileiro. Não só isso: quando percebeu que o material que tinha em mãos era mais rico do que o imaginado, Caco decidiu-se por contar a história de cada integrante do grupo que cresceu com Juliano e que o acompanhou (ou não) na vida criminosa, a Turma da Xuxa. Narrada, a história de Juliano e seus amigos toma ares quixotescos: o traficante é retratado como o “bandido com consciência social”, que admirava Che Guevara, devorava livros de filosofia e que pretendia pôr em prática uma revolução que partiria da própria favela.

Na terceira parte da obra, intitulada Adeus às Armas, Caco Barcellos deixa a posição de narrador onisciente e passa ser parte do próprio livro, na condição de personagem-repórter. E é aí que a coisa desanda. Logo nas primeiras páginas do novo capítulo, Caco admite os perigos de escrever um livro sobre um bandido. Sabe que, caso não trabalhado cuidadosamente, a escritura de tal material pode transformar a narrativa em pura apologia ao crime. Pode tornar-se crime. Causa estranheza esta súbita crise de consciência, já que Caco passa 400 páginas retratando Juliano como um herói dos pobres, estreitando nosso laço e criando nossa empatia para com ele. Até seus crimes são amenizados: normalmente citados ou intuídos, quando descritos, sua gangue nunca é violenta como a dos rivais, nunca há mortos ou feridos entre os civis. Pura apologia.

É claro, escrever sobre o crime e não tomar partido é dificílimo. Veja as puas pelas quais passa José Padilha, diretor de Tropa de Elite, que adota em seu longa posição contrária ao do autor de Abusado. A saída – pretender ficar em cima do muro – soa falsa em ambos em casos. No caso de Padilha que, ao justificar ter dado a “visão dos policiais” despreza suas próprias capacidades narrativas. No caso de Caco, desde a época de repórter setorista em Porto Alegre assumidamente a favor dos “fracos e oprimidos” – em suma, os socialmente excluídos, criminosos ou não.

O charme de Abusado está em sua própria fraqueza. Enquanto jornalisticamente imparcial falha de forma vergonhosa, enquanto retrato de uma das mais curiosas figuras brasileiras, é extremamente sedutor. Na escrita precisa e entusiasmada de Caco, Juliano VP torna-se um personagem tão essencial ao imaginário brasileiro quanto qualquer Leonardo Pataca ou Macunaíma. Torna-se a síntese da alma brasileira; porém de uma alma mais atual, ainda voltada para o ganho pessoal sobremaneira, mas afeita a obtê-lo no batente – ilegal ou não.

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Entrevista: Guillermo Arriaga, no Roda Viva

10 Julho, 2007

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O escritor e roteirista mexicano Guillermo Arriaga concedeu uma entrevista ao Roda Viva, exibida na noite de segunda-feira. Arriaga, roteirista de Amores Brutos, 21 Gramas, Babel e Três Enterros; e autor de O Búfalo da Noite e Um Doce Aroma de Morte, participa como convidado da Flip – Festa Literária Internacional de Parati. Participaram da entrevista muita gente bacana, como Paulo Lins (autor de Cidade de Deus), Cunha Jr (da própria TV Cultura) e Ubiratan Brasil (sub-editor do Estadão).

Na seqüência, as partes que achei mais interessantes da entrevista:

A morte como sentido para a vida

Guillermo Arriaga busca na morte compreender a vida. Não é uma questão de morbidez; é, diz ele, uma exigência que a vida faz para ser conhecida: a presença da morte. Mais do que uma obsessão literária, seu interesse pela morte é o resultado de seu profundo vínculo com a vida. “Se não tivermos um sentido de fim”, diz ele, “não damos valor à morte”. Arriaga acredita que vivemos em uma cultura que cada vez mais nega a morte e, conseqüentemente, nega a vida. “Todo esse sucesso das cirurgias plásticas e produtos light é o mesmo que negar constantemente a morte, pois tira as cicatrizes da vida”. Ou seja, perdemos a noção de fim, de que a vida é uma conseqüência de atos, e que um dia acaba. “Como um sentindo de morte, aprecie mais a vida, agarre-a com mais força”, é a sua dica.

O paradoxo do caçador

Guillermo Arriaga caça desde os 12 anos. O faz porque acredita que esta proximidade com a experiência de morte traz um sentido à vida. Sustenta um paradoxo: o caçador ama os animais, mas mesmo assim os persegue. “Não há nada mais triste do que matar um animal bonito”, diz. Em seus livros e filmes, os personagens comportam-se como caçadores. Justifica-se dizendo que acredita hoje estarmos mais para o “lado animal” do que o “lado civilizado” da sociedade: a maneira como os políticos buscam e manipulam o poder, o ritual de sedução entre um homem e uma mulher, a violência como meio de sobrevivência. Sua identificação como um caçador é tanta que Guillermo Arriaga crê-se “um caçador, trabalhando como escritor”.

Contra a banalização da violência

Seus filmes, repletos de uma violência brutal, são entendidos por ele como um libelo anti-violência: a dose exagerada causaria a repulsa à violência. Guillermo acredita que a mistura de culturas e as diferenças sociais são o motivo da banalização da violência. Todo ato humano gera sangue: a palavra é violência. Arriaga critica Tarantino que, mais do que banalizar a violência, a transforma numa piada. “É preciso recuperar a profundidade de cada morte”, diz. É por isto que cada morte em seus filmes choca, é impactante, revoltante, violenta. Em um filme, é quando as mortes são esquecidas (o caso de Tarantino), que reside a banalização da violência: deixa-se de se importar com a violência de uma perda. “A identidade está condicionada por outras vidas humanas, e cada vez que uma destas vidas se perde, um pouco de nossa identidade é cortada”.

Mentir é preciso

Outro tema recorrente da prosa do autor mexicano é a mentira ou, como gosta de dizer, a “banalização da verdade”. Mentir é um ato de autopreservação, enquanto dizer a verdade é o mesmo que expôr-se, podendo inclusive ser um ato destrutivo. Em seu livro Um Doce Aroma de Morte, um crítico alemão encontrou a gênese do nazismo: a mentira que cresce e suplanta a verdade, dando à realidade um novo sentido. Mas esta tendência de mentir é inerente ao ser humano: é do homem a necessidade de criar mitos. Preocupantemente, a sociedade atual parece ter perdido a capacidade de ficcionalizar. “Uma sociedade incapaz de contar histórias é incapaz de refletir sobre si mesma, incapaz de repensar suas atitudes”.

Internet e o novo papel da palavra escrita

Guillermo está satisfeito com a “informatização” da sociedade. “Há quinze anos, a palavra escrita parecia condenada ao esquecimento; os jovens haviam perdido o costume de escrever cartas. Hoje, com o email, se escrevem muitas cartas. No celular, as mensagens escritas devolveram à palavra um papel. Curiosamente, os jovens estão começando a ler. A palavra escrita voltou a ter sentido”.

Cinema x Literatura

O livro, para Arriaga, é o momento mais alto da civilização; proporciona um espelho mais profundo que o cinema. A psicologia dos personagens no cinema é revelada através de seus atos, suas ações. A maior crise do cinema atual é a falta de histórias consistentes. Pode – e deve – existir beleza estética, mas o que fica quando se sai de uma sessão de cinema é a história; responsável por 95% de uma película. “Quando dizemos que um filme tem uma bela fotografia, é por que sabemos que ele fracassou no objetivo de contar uma história”.

A literatura pela literatura

A literatura é um processo inconsciente. Quando escreve-se uma história, nunca se sabe onde está história irá levar o autor. Os personagens se rebelam; tomam vida própria. Conseqüentemente, a forma é um dos elementos mais importantes da escrita, mas, sem fundo, fica vazia. Arriaga cita William Faulkner: “os escritores que não atentam ao coração humano não têm por que escrever”.

O amor segundo Norman Mailer

5 Julho, 2007

(…) e uma voz como um sussurro de criança à brisa fez-se ouvir tão fraca que mal consegui ouvi-la. “Você a quer?”, perguntou. “Você realmente a quer, você quer finalmente saber o que é amor?”, e eu desejei algo que jamais conhecera antes, e respondi, foi como se minha voz saísse do fundo de suas raízes: “Quero”, respondi, “claro que quero, quero amor”, mas como um velho cavalheiro mundano, uma porção cínica de minha mente acrescentou “Sem dúvida, que é que se tem a perder?”, e então uma voz atemorizada: “Ah, você tem mais a perder do que já perdeu, falhe no amor e perderá mais que pode imaginar”. “E se eu não falhar?”, repliquei. “Não pergunte”, disse a voz, “escolha já!” E um imenso pavor espalhou-se em mim, assomando como um dragão, como se eu soubesse que a escolha era real, e em um impulso de terror abri os olhos e vi seu belo rosto embaixo de mim naquela manhã chuvosa, seus olhos estavam dourados de luz e ela disse: “Ah, claro, meu bem”, e eu disse claro para a voz em mim e senti o amor entrar em mim como um pássaro de grandes asas, asas esvoaçaram às minhas costas e senti a força de vontade dela se dissolver em lágrimas, e uma tristeza imensa e profunda como rosas afogadas no sal do mar jorrar de seu ventre e lavar como um bálsamo todas as mágoas amargas de minha alma e, pela primeira vez na vida, sem atravessar as chamas nem forçar a rigidez da minha vontade, saí do meu corpo em vez de descer da mente, não pude parar, partiu-se em mim um escudo, felicidade, e o mel que ela me dera eu só poderia retribuir, toda doçura para o seu ventre, tudo se despejou em sua boceta.

- Puta-que-pariu – exclamei -, então é disso que se trata!

E adormeci. (…)

Norman Mailer in “Um Sonho Americano”, pp. 134-5

Bob Gruen em SP

20 Maio, 2007

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O fotógrafo das estrelas do rock Bob Gruen esteve no Brasil semana passada para inaugurar a exposição Rockers que conta com cerca 270 fotos de seu arquivo pessoal, além de capas de discos, revistas e pôsters com seu trabalho e vai até 1º de julho. Entre as fotos, textos curtos comentam suas experiências com as estrelas.

Bob fotografou medalhões do rock como Rolling Stones, Sex Pistols, Iggy Pop, Chuck Berry, Led Zepelin, Elton John, White Stripes além de ser o fotógrafo oficial da família Lennon. Algumas fotos, como a do Sid Vicious comendo cachorro quente, viraram ícone de culto. A exposição ocorre na FAAP e tem curadoria de (surpresa!) Supla, que diz-se amigo pessoal de Bob Gruen.

Quem, como nós, não vai dar uma bandinha por Sampa pra conferir a exposição, pode deliciar-se com o livro Rockers, da Editora Cosac Naify (R$ 69,00 na Cultura). Além das fotos da exposição, em versão reduzida e com os mesmos textos, mais 144 fotos – estas ampliadas- ilustram o livro.

Bob Gruen, descrito como de personalidade fácil e agradável, recebeu aulas de fotografia da própria mãe e, aos 18 anos, dividia um apê com a banda Glitterhouse – que ficou na poeira da história do rock’n'roll. Bob fez a capa do disco dos caras, a gravadora curtiu o trabalho e o contratou como fotógrafo oficial. O resto é a história contada na exposição e no livro.

No site do cara, é possível conferir uma prévia do seu trabalho.