
BARCELLOS, CACO. Abusado: o dono do Morro Dona Marta. 9ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2004. R$ 55,00 em média.
As duas primeiras partes de Abusado, Tempos de Viver e Tempos de Morrer, biografam o traficante carioca Juliano VP (pseudônimo de Marcinho VP) de forma romanceada. Através da rigorosa série de entrevistas que Caco impôs durante anos, o livro aborda desde a infância até a morte de um dos maiores chefões do crime organizado brasileiro. Não só isso: quando percebeu que o material que tinha em mãos era mais rico do que o imaginado, Caco decidiu-se por contar a história de cada integrante do grupo que cresceu com Juliano e que o acompanhou (ou não) na vida criminosa, a Turma da Xuxa. Narrada, a história de Juliano e seus amigos toma ares quixotescos: o traficante é retratado como o “bandido com consciência social”, que admirava Che Guevara, devorava livros de filosofia e que pretendia pôr em prática uma revolução que partiria da própria favela.
Na terceira parte da obra, intitulada Adeus às Armas, Caco Barcellos deixa a posição de narrador onisciente e passa ser parte do próprio livro, na condição de personagem-repórter. E é aí que a coisa desanda. Logo nas primeiras páginas do novo capítulo, Caco admite os perigos de escrever um livro sobre um bandido. Sabe que, caso não trabalhado cuidadosamente, a escritura de tal material pode transformar a narrativa em pura apologia ao crime. Pode tornar-se crime. Causa estranheza esta súbita crise de consciência, já que Caco passa 400 páginas retratando Juliano como um herói dos pobres, estreitando nosso laço e criando nossa empatia para com ele. Até seus crimes são amenizados: normalmente citados ou intuídos, quando descritos, sua gangue nunca é violenta como a dos rivais, nunca há mortos ou feridos entre os civis. Pura apologia.
É claro, escrever sobre o crime e não tomar partido é dificílimo. Veja as puas pelas quais passa José Padilha, diretor de Tropa de Elite, que adota em seu longa posição contrária ao do autor de Abusado. A saída – pretender ficar em cima do muro – soa falsa em ambos em casos. No caso de Padilha que, ao justificar ter dado a “visão dos policiais” despreza suas próprias capacidades narrativas. No caso de Caco, desde a época de repórter setorista em Porto Alegre assumidamente a favor dos “fracos e oprimidos” – em suma, os socialmente excluídos, criminosos ou não.
O charme de Abusado está em sua própria fraqueza. Enquanto jornalisticamente imparcial falha de forma vergonhosa, enquanto retrato de uma das mais curiosas figuras brasileiras, é extremamente sedutor. Na escrita precisa e entusiasmada de Caco, Juliano VP torna-se um personagem tão essencial ao imaginário brasileiro quanto qualquer Leonardo Pataca ou Macunaíma. Torna-se a síntese da alma brasileira; porém de uma alma mais atual, ainda voltada para o ganho pessoal sobremaneira, mas afeita a obtê-lo no batente – ilegal ou não.
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