Habemus Papam (2011)

Diretor: Nanni Moretti

Roteirista: Nanni Moretti, Francesco Piccolo

Com: Michel Piccoli, Jerzy StuhrRenato Scarpa

No primeiro capítulo de Imagem-Tempo, o segundo volume de seu estudo acerca do cinema, G. Deleuze aponta uma fratura na representação do “real” ocorrida a partir do Neo-Realismo: as situações sensório-motoras, que até então “impeliam” as personas fílmicas à ação, entram em crise em detrimento de situações óticas e sonoras que atravessam e extravasam os personagens, incapazes de lidar com tamanha força sobre si. Como exemplo, cita a cena da jovem empregada em Umberto D., na qual a moça entra na cozinha de manhã e faz uma série de gestos maquinais – limpa, expulsa as formigas, abre e fechas portas da dispensa. Mas, “quando seus olhos fitam sua barriga de grávida, é como se nascesse toda miséria do mundo.” Deparada com essa “situação ótica pura”, a empregada não encontra resposta ou ação. (É por isso também que Deleuze concordaria que o Neo-Realismo é um cinema de encontro… o encontro dos olhos e da barriga, para o qual não se tem resposta).

Mas é Nanni Moretti que, quase 60 anos depois do filme de De Sica, oferece um tipo de “encontro” supremo, único na sua extensão e intensidade: a fé em Deus, capaz de catapultar o pobre protagonista (Michel Piccoli) para dentro de si, uma busca atrás de suas origens mais “humanas”, o que, invariavelmente irá lhe afastar ainda mais de seu objeto de adoração (e seu conseguinte lugar no mundo).

Em Habemus Papam, após a morte do último Supremo Pontífice, os 108 cardeais da Igreja Católica reúnem-se num Conclave para a eleição do próximo; eleição que é feita “duplamente”, pois é através dos votos dos cardeais que a vontade de Deus se faz manifesta. O escolhido é o retraído Melville (Piccoli) que, desconfortável frente aos demais cardeais que formalizam a passagem, percebe que é naquele momento que “todos se foram, todas as memórias desapareceram.” Ou seja, quando Deus lhe falou, sua vida pregressa desapareceu; Melville passa a ser o receptáculo da vontade de Deus na Terra.

Moretti diz, acerca de seu filme, que “humanizou o Papa”. De certa forma, o fez: ao promover este encontro entre a vontade divina e um “mero” cardial, aponta a incapacidade do ser humano em lidar com aquilo que é maior do que si. Melville não se considera apto para a função (convém dizer que, querendo ou não, ele deve aceitar a cruz que lhe foi imposta), e parte para dentro de seu âmago para encontrar os motivos para negar seu destino. Procura psicólogos, que ora lhe indicam traumas na infância, ora lhe sugerem estresse emocional. À frente de ambos, Melville só consegue balbuciar: “antes eu fazia muito, agora já não posso mais nada.” Com o peso não só de um mundo (o terreno) sobre suas costas, mas de dois (o divino), não admira essa incapacidade de agir. O que torna mais interessante ainda o fato de Melville, mesmo após ter refutado um desígnio divino, jamais questionar sua fé. Esta permanece inabalável, mesmo após ter cindido no seu cerne.

Logo, tem início um jogo de espera, de inação, que irá se derramar sobre todos os outros personagens da trama: o psicanalista arrogante (o próprio Moretti), que vive repetindo, para quem lhe der ouvidos, que é o melhor no que faz – ainda que seja incapaz de ajudar o Pontífice; a psicoterapeuta, ex-mulher do psicanalista, incapaz de assumir um namorado para seus dois filhos pequenos; o assessor de imprensa, incapaz de resolver uma situação que ele mesmo provocou; os cardiais, incapazes até de esperar pela definição do novo Papa, e que passam por um divertido processo de “humanização” na presença do falastrão psicanalista. Há, inclusive, nos primeiros minutos do filme, um repórter de televisão flagrantemente incapaz de exercer sua profissão – e, mais para o fim, um comentarista incapaz de tecer qualquer comentário.

No meio desse jogo, Melville perde-se pela capital italiana e depara-se com uma trupe de atores de teatro russos, preparando uma nova encenação de Tolstói. O novo Papa lembra que seu sonho não concretizado era ser um ator de teatro. Imiscuído entre os novos amigos, Melville não percebe como os atores são “incapazes” de lidar com o mundo a seu redor – fato escancarado no ator que repete sem parar as falas (todas, não só as suas) da peça, mas também perceptível quando todos, em volta de uma mesa, conversam sobre assuntos desconexos uns com os outros. Assim, atentem para o único personagem realmente capaz da trama, o soldado do Vaticano que exerce um jogo de duplo com o Papa – a bem da verdade, sua tarefa nem é das mais difíceis, mas o filme é tão recheado de incapazes que somos tentados a pensar que este é mais um deles.

É nesse mar de incapacidade, de mediocridade, que Moretti nos submerge. Frente aos grandes desígnios do universo (acredite-se Nele ou não), não somos mais do que crianças amedrontadas que não conseguem conter o impulso de botar o dedo na boca. É por isso que o desfecho dessa trama só pode ser um, e que Moretti desembaraça ao explodir esse estranho emaranho de fé e esperança cega que depositamos nos “escolhidos” por Deus, esquecendo que, eles também são tão frágeis (e psicopatas) quanto cada um de nós.

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