(…) e uma voz como um sussurro de criança à brisa fez-se ouvir tão fraca que mal consegui ouvi-la. “Você a quer?”, perguntou. “Você realmente a quer, você quer finalmente saber o que é amor?”, e eu desejei algo que jamais conhecera antes, e respondi, foi como se minha voz saísse do fundo de suas raízes: “Quero”, respondi, “claro que quero, quero amor”, mas como um velho cavalheiro mundano, uma porção cínica de minha mente acrescentou “Sem dúvida, que é que se tem a perder?”, e então uma voz atemorizada: “Ah, você tem mais a perder do que já perdeu, falhe no amor e perderá mais que pode imaginar”. “E se eu não falhar?”, repliquei. “Não pergunte”, disse a voz, “escolha já!” E um imenso pavor espalhou-se em mim, assomando como um dragão, como se eu soubesse que a escolha era real, e em um impulso de terror abri os olhos e vi seu belo rosto embaixo de mim naquela manhã chuvosa, seus olhos estavam dourados de luz e ela disse: “Ah, claro, meu bem”, e eu disse claro para a voz em mim e senti o amor entrar em mim como um pássaro de grandes asas, asas esvoaçaram às minhas costas e senti a força de vontade dela se dissolver em lágrimas, e uma tristeza imensa e profunda como rosas afogadas no sal do mar jorrar de seu ventre e lavar como um bálsamo todas as mágoas amargas de minha alma e, pela primeira vez na vida, sem atravessar as chamas nem forçar a rigidez da minha vontade, saí do meu corpo em vez de descer da mente, não pude parar, partiu-se em mim um escudo, felicidade, e o mel que ela me dera eu só poderia retribuir, toda doçura para o seu ventre, tudo se despejou em sua boceta.
- Puta-que-pariu – exclamei -, então é disso que se trata!
E adormeci. (…)
Norman Mailer in “Um Sonho Americano”, pp. 134-5