Posts de Julho, 2007

Entrevista: Guillermo Arriaga, no Roda Viva

10 Julho, 2007

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O escritor e roteirista mexicano Guillermo Arriaga concedeu uma entrevista ao Roda Viva, exibida na noite de segunda-feira. Arriaga, roteirista de Amores Brutos, 21 Gramas, Babel e Três Enterros; e autor de O Búfalo da Noite e Um Doce Aroma de Morte, participa como convidado da Flip – Festa Literária Internacional de Parati. Participaram da entrevista muita gente bacana, como Paulo Lins (autor de Cidade de Deus), Cunha Jr (da própria TV Cultura) e Ubiratan Brasil (sub-editor do Estadão).

Na seqüência, as partes que achei mais interessantes da entrevista:

A morte como sentido para a vida

Guillermo Arriaga busca na morte compreender a vida. Não é uma questão de morbidez; é, diz ele, uma exigência que a vida faz para ser conhecida: a presença da morte. Mais do que uma obsessão literária, seu interesse pela morte é o resultado de seu profundo vínculo com a vida. “Se não tivermos um sentido de fim”, diz ele, “não damos valor à morte”. Arriaga acredita que vivemos em uma cultura que cada vez mais nega a morte e, conseqüentemente, nega a vida. “Todo esse sucesso das cirurgias plásticas e produtos light é o mesmo que negar constantemente a morte, pois tira as cicatrizes da vida”. Ou seja, perdemos a noção de fim, de que a vida é uma conseqüência de atos, e que um dia acaba. “Como um sentindo de morte, aprecie mais a vida, agarre-a com mais força”, é a sua dica.

O paradoxo do caçador

Guillermo Arriaga caça desde os 12 anos. O faz porque acredita que esta proximidade com a experiência de morte traz um sentido à vida. Sustenta um paradoxo: o caçador ama os animais, mas mesmo assim os persegue. “Não há nada mais triste do que matar um animal bonito”, diz. Em seus livros e filmes, os personagens comportam-se como caçadores. Justifica-se dizendo que acredita hoje estarmos mais para o “lado animal” do que o “lado civilizado” da sociedade: a maneira como os políticos buscam e manipulam o poder, o ritual de sedução entre um homem e uma mulher, a violência como meio de sobrevivência. Sua identificação como um caçador é tanta que Guillermo Arriaga crê-se “um caçador, trabalhando como escritor”.

Contra a banalização da violência

Seus filmes, repletos de uma violência brutal, são entendidos por ele como um libelo anti-violência: a dose exagerada causaria a repulsa à violência. Guillermo acredita que a mistura de culturas e as diferenças sociais são o motivo da banalização da violência. Todo ato humano gera sangue: a palavra é violência. Arriaga critica Tarantino que, mais do que banalizar a violência, a transforma numa piada. “É preciso recuperar a profundidade de cada morte”, diz. É por isto que cada morte em seus filmes choca, é impactante, revoltante, violenta. Em um filme, é quando as mortes são esquecidas (o caso de Tarantino), que reside a banalização da violência: deixa-se de se importar com a violência de uma perda. “A identidade está condicionada por outras vidas humanas, e cada vez que uma destas vidas se perde, um pouco de nossa identidade é cortada”.

Mentir é preciso

Outro tema recorrente da prosa do autor mexicano é a mentira ou, como gosta de dizer, a “banalização da verdade”. Mentir é um ato de autopreservação, enquanto dizer a verdade é o mesmo que expôr-se, podendo inclusive ser um ato destrutivo. Em seu livro Um Doce Aroma de Morte, um crítico alemão encontrou a gênese do nazismo: a mentira que cresce e suplanta a verdade, dando à realidade um novo sentido. Mas esta tendência de mentir é inerente ao ser humano: é do homem a necessidade de criar mitos. Preocupantemente, a sociedade atual parece ter perdido a capacidade de ficcionalizar. “Uma sociedade incapaz de contar histórias é incapaz de refletir sobre si mesma, incapaz de repensar suas atitudes”.

Internet e o novo papel da palavra escrita

Guillermo está satisfeito com a “informatização” da sociedade. “Há quinze anos, a palavra escrita parecia condenada ao esquecimento; os jovens haviam perdido o costume de escrever cartas. Hoje, com o email, se escrevem muitas cartas. No celular, as mensagens escritas devolveram à palavra um papel. Curiosamente, os jovens estão começando a ler. A palavra escrita voltou a ter sentido”.

Cinema x Literatura

O livro, para Arriaga, é o momento mais alto da civilização; proporciona um espelho mais profundo que o cinema. A psicologia dos personagens no cinema é revelada através de seus atos, suas ações. A maior crise do cinema atual é a falta de histórias consistentes. Pode – e deve – existir beleza estética, mas o que fica quando se sai de uma sessão de cinema é a história; responsável por 95% de uma película. “Quando dizemos que um filme tem uma bela fotografia, é por que sabemos que ele fracassou no objetivo de contar uma história”.

A literatura pela literatura

A literatura é um processo inconsciente. Quando escreve-se uma história, nunca se sabe onde está história irá levar o autor. Os personagens se rebelam; tomam vida própria. Conseqüentemente, a forma é um dos elementos mais importantes da escrita, mas, sem fundo, fica vazia. Arriaga cita William Faulkner: “os escritores que não atentam ao coração humano não têm por que escrever”.

O amor segundo Norman Mailer

5 Julho, 2007

(…) e uma voz como um sussurro de criança à brisa fez-se ouvir tão fraca que mal consegui ouvi-la. “Você a quer?”, perguntou. “Você realmente a quer, você quer finalmente saber o que é amor?”, e eu desejei algo que jamais conhecera antes, e respondi, foi como se minha voz saísse do fundo de suas raízes: “Quero”, respondi, “claro que quero, quero amor”, mas como um velho cavalheiro mundano, uma porção cínica de minha mente acrescentou “Sem dúvida, que é que se tem a perder?”, e então uma voz atemorizada: “Ah, você tem mais a perder do que já perdeu, falhe no amor e perderá mais que pode imaginar”. “E se eu não falhar?”, repliquei. “Não pergunte”, disse a voz, “escolha já!” E um imenso pavor espalhou-se em mim, assomando como um dragão, como se eu soubesse que a escolha era real, e em um impulso de terror abri os olhos e vi seu belo rosto embaixo de mim naquela manhã chuvosa, seus olhos estavam dourados de luz e ela disse: “Ah, claro, meu bem”, e eu disse claro para a voz em mim e senti o amor entrar em mim como um pássaro de grandes asas, asas esvoaçaram às minhas costas e senti a força de vontade dela se dissolver em lágrimas, e uma tristeza imensa e profunda como rosas afogadas no sal do mar jorrar de seu ventre e lavar como um bálsamo todas as mágoas amargas de minha alma e, pela primeira vez na vida, sem atravessar as chamas nem forçar a rigidez da minha vontade, saí do meu corpo em vez de descer da mente, não pude parar, partiu-se em mim um escudo, felicidade, e o mel que ela me dera eu só poderia retribuir, toda doçura para o seu ventre, tudo se despejou em sua boceta.

- Puta-que-pariu – exclamei -, então é disso que se trata!

E adormeci. (…)

Norman Mailer in “Um Sonho Americano”, pp. 134-5