O escritor e roteirista mexicano Guillermo Arriaga concedeu uma entrevista ao Roda Viva, exibida na noite de segunda-feira. Arriaga, roteirista de Amores Brutos, 21 Gramas, Babel e Três Enterros; e autor de O Búfalo da Noite e Um Doce Aroma de Morte, participa como convidado da Flip – Festa Literária Internacional de Parati. Participaram da entrevista muita gente bacana, como Paulo Lins (autor de Cidade de Deus), Cunha Jr (da própria TV Cultura) e Ubiratan Brasil (sub-editor do Estadão).
Na seqüência, as partes que achei mais interessantes da entrevista:
A morte como sentido para a vida
Guillermo Arriaga busca na morte compreender a vida. Não é uma questão de morbidez; é, diz ele, uma exigência que a vida faz para ser conhecida: a presença da morte. Mais do que uma obsessão literária, seu interesse pela morte é o resultado de seu profundo vínculo com a vida. “Se não tivermos um sentido de fim”, diz ele, “não damos valor à morte”. Arriaga acredita que vivemos em uma cultura que cada vez mais nega a morte e, conseqüentemente, nega a vida. “Todo esse sucesso das cirurgias plásticas e produtos light é o mesmo que negar constantemente a morte, pois tira as cicatrizes da vida”. Ou seja, perdemos a noção de fim, de que a vida é uma conseqüência de atos, e que um dia acaba. “Como um sentindo de morte, aprecie mais a vida, agarre-a com mais força”, é a sua dica.
O paradoxo do caçador
Guillermo Arriaga caça desde os 12 anos. O faz porque acredita que esta proximidade com a experiência de morte traz um sentido à vida. Sustenta um paradoxo: o caçador ama os animais, mas mesmo assim os persegue. “Não há nada mais triste do que matar um animal bonito”, diz. Em seus livros e filmes, os personagens comportam-se como caçadores. Justifica-se dizendo que acredita hoje estarmos mais para o “lado animal” do que o “lado civilizado” da sociedade: a maneira como os políticos buscam e manipulam o poder, o ritual de sedução entre um homem e uma mulher, a violência como meio de sobrevivência. Sua identificação como um caçador é tanta que Guillermo Arriaga crê-se “um caçador, trabalhando como escritor”.
Contra a banalização da violência
Seus filmes, repletos de uma violência brutal, são entendidos por ele como um libelo anti-violência: a dose exagerada causaria a repulsa à violência. Guillermo acredita que a mistura de culturas e as diferenças sociais são o motivo da banalização da violência. Todo ato humano gera sangue: a palavra é violência. Arriaga critica Tarantino que, mais do que banalizar a violência, a transforma numa piada. “É preciso recuperar a profundidade de cada morte”, diz. É por isto que cada morte em seus filmes choca, é impactante, revoltante, violenta. Em um filme, é quando as mortes são esquecidas (o caso de Tarantino), que reside a banalização da violência: deixa-se de se importar com a violência de uma perda. “A identidade está condicionada por outras vidas humanas, e cada vez que uma destas vidas se perde, um pouco de nossa identidade é cortada”.
Mentir é preciso
Outro tema recorrente da prosa do autor mexicano é a mentira ou, como gosta de dizer, a “banalização da verdade”. Mentir é um ato de autopreservação, enquanto dizer a verdade é o mesmo que expôr-se, podendo inclusive ser um ato destrutivo. Em seu livro Um Doce Aroma de Morte, um crítico alemão encontrou a gênese do nazismo: a mentira que cresce e suplanta a verdade, dando à realidade um novo sentido. Mas esta tendência de mentir é inerente ao ser humano: é do homem a necessidade de criar mitos. Preocupantemente, a sociedade atual parece ter perdido a capacidade de ficcionalizar. “Uma sociedade incapaz de contar histórias é incapaz de refletir sobre si mesma, incapaz de repensar suas atitudes”.
Internet e o novo papel da palavra escrita
Guillermo está satisfeito com a “informatização” da sociedade. “Há quinze anos, a palavra escrita parecia condenada ao esquecimento; os jovens haviam perdido o costume de escrever cartas. Hoje, com o email, se escrevem muitas cartas. No celular, as mensagens escritas devolveram à palavra um papel. Curiosamente, os jovens estão começando a ler. A palavra escrita voltou a ter sentido”.
Cinema x Literatura
O livro, para Arriaga, é o momento mais alto da civilização; proporciona um espelho mais profundo que o cinema. A psicologia dos personagens no cinema é revelada através de seus atos, suas ações. A maior crise do cinema atual é a falta de histórias consistentes. Pode – e deve – existir beleza estética, mas o que fica quando se sai de uma sessão de cinema é a história; responsável por 95% de uma película. “Quando dizemos que um filme tem uma bela fotografia, é por que sabemos que ele fracassou no objetivo de contar uma história”.
A literatura pela literatura
A literatura é um processo inconsciente. Quando escreve-se uma história, nunca se sabe onde está história irá levar o autor. Os personagens se rebelam; tomam vida própria. Conseqüentemente, a forma é um dos elementos mais importantes da escrita, mas, sem fundo, fica vazia. Arriaga cita William Faulkner: “os escritores que não atentam ao coração humano não têm por que escrever”.
