ESPECIAL QT> Parte IV: Vivendo o Legado

29 Março, 2008 by Marcio Telles

 

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Na quinta-feira que passou (dia 27), um dos cineastas mais comentados da última década (quiçá do século) completou 45 anos. Trata-se do enfant terrible Quentin Tarantino, cujo trabalho revolucionou a indústria de entretenimento norte-americana, permitindo (sem sombra de dúvida, isto é fato consumado e não está aberto a discussões) que o público norte-americano tivesse acesso a filmes que, do contrário, continuariam inacessíveis. Tarantino recolocou nas mesas de discussões nomes esquecidos como Pam Grier, Bruce Willis, Harvey Keitel, John Travolta (só para citar alguns) e apresentou outros, como Michael Madsen, Tim Roth, Steve Buscemi e Samuel L. Jackson. Mais do que isso, trouxe à tona a geração dos “realizadores malditos” de Hollywood, o pessoal da AIP (Action International Film), e sujeitos como Russ Meyer, Andy Sidaris, Roger Corman que, de tão esquecidos, já estavam empoeirados nas prateleiras de vídeo-locadora. Transformou-os em hits instânteos. Ressuscitou o exploitation e todas as suas vertentes – o que, para desespero dos puristas, repetiu a fórmula que o nosso José Mojica Marins já havia percebido nos idos anos 1960: o que o povão quer é sexo e violência, o resto é viadagem. Hooray!

Outros artigos da série:
1) As influências
2) Disparos do front da cultura pop
3) Tarantino, diretor
4) Vivendo o legado

As resenhas:
1) True Romance
2) Reservoir Dogs
3) Natural Born Killers
4) Pulp Fiction
5) From Dusk Till Dawn star.jpgstar.jpgstar.jpgstar.jpg
6) Jackie Brown
7) Kill Bill vol. I
8 ) Kill Bill vol. II
9) Death Proof

 

 

4: Vivendo o legado

Sem o espaço aberto por Quentin Tarantino, é de se especular que um diretor como John Woo nunca tivesse executado a transição entre Hong Kong e Hollywood. Simplesmente não haveria espaço para alguém que praticasse um filme com linguagem narrativa e estética considerada tão demodé e exagerada pelos críticos. Um gênero – a ação – nos últimos anos relacionado às produções de gosto duvidoso, resultado do próprio sistema de exploração hollywoodiana, talvez nunca retornasse ao topo das bilheterias se não fosse por películas como Reservoir Dogs ou Pulp Fiction. Forçando a barra, poder-se-ia até afirmar que, não fosse por Tarantino e sua paixão pela cultura pop, filmes baseados em quadrinhos e videogames teriam que aguardar mais tempo até verem seus produtos “descobertos” por Hollywood.

Uma das maiores influências que Tarantino legou ao cinema mundial é a desconstrução narrativa. Aproximando-se (e bastante) das elipses narrativas videoclípicas (por causa do videoclipe ou reflexo deste, não importa: como já dito, o trabalho de QT é influência da cultura pop e influenciado por ela), Tarantino pratica o ode à fuga dos grilhões do cinema narrativo baseado no romance do século XIX. Mas não é uma narrativa montada em flashbacks: é uma narrativa descontinuada e embaralhada, mas, sobretudo, pulverizada. Como em um livro, a história desenvolve-se por capítulos, e cada capítulo guarda em si os tempos que precisa para desenvolver sua ação. Este processo fica mais claro em Kill Bill por mero capricho do diretor (que intitula os capítulos, demarcando o fim e o início de cada um deles), mas ocorre também, ainda que menos perceptível no primeiro e quase invisível no segundo, em Pulp Fiction e Reservoir Dogs.

Apenas uma desestruturação narrativa exercida de dentro do esquema hollywoodiano permitira a exploração dos limites temporais por outros autores com igual sucesso de público e crítica. Estou falando de Run, Lola Run, de Tom Tykwer, cuja divisão temporal do filme em três capítulos que se repetem com desenlaces distintos é bastante tarantinesca. Seria o britânico Guy Ritchie com seu Lock Stock & 2 Smoking Barrels, cujo roteiro labiríntico anda para frente e para trás para retornar a si mesmo no final, tão bem sucedido na indústria? Curioso notar que ambos os diretores repetiriam em seus filmes seguintes a exploração do tempo e do espaço na narrativa cinematográfica – em Princess and the Warrior e em Snatch, respectivamente.

O terceiro e o quarto diretor que exploram este aspecto do trabalho de Tarantino foram os que mais contribuíram para a reflexão sobre a estrutura narrativa no cinema nos anos pós-Tarantino (1992 em diante). Um deles – talvez assustado demais com suas próprias descobertas – deixou de lado as experimentações em seus trabalhos futuros. O outro barbarizou a ponto de construir um filme com tantas elipses em seu núcleo narrativo que foi chamado de “youtubeano”. O primeiro é Christopher Nolan (Memento) e o segundo, Richard Kelly (Donnie Darko e Southland Tales). O roteiro de Memento, que ignora a memória e seus efeitos narrativos, abusa dos flashbacks que inicia um cada vez mais cedo do que o último – e, mesmo assim, consegue entregar um filme compreensível e sem pontas desamarradas. É um dos melhores exemplos da desordem narrativa iniciada em 1992 com Reservoir Dogs e levada ao cabo 14 anos depois por Kelly em Southland Tales. Porém, o trabalho de Kelly é tão perturbador, e ao mesmo tempo tão pastiche, que de lá para cá não existiram outras grandes explorações destas estruturas em Hollywood. Talvez pelo fato de Hollywood já ter absorvido estas estruturas, como visto, de forma mais acessível, em dois bons exemplares de ação: Crank e Shoot’em Up.

Esta narrativa fragmentada e episódica, na qual Michael Haneke é um dos expoentes (Funny Games, por exemplo), também exprime outro elemento do “legado” de Tarantino: a participação (às vezes sádica) do público nos filmes. Tanto em Tarantino quanto em Haneke, a recusa em absorver morais elevadas em troca de violência imediata também é marca deste cinema. Deixaremos claro que não foi Tarantino quem inventou estes elementos: é certo que, desde o advento e posterior crescimento do videoclipe durante a década de 1980, a forma narrativa clássica de Hollywood estava fadada ao desaparecimento, ou ao menos à reciclagem. Igualmente, desde o lançamento de filmes como Star Wars (1977) e Terminator 2: Judgment Day (1991), o triunfo do estilo sobre o conteúdo era questão de tempo. O mérito de Tarantino é ter feito esta transição da forma mais indolor possível e ter apresentado estes dois elementos - sem os quais é impossível pensar o cinema norte-americano no século XXI - ao maior número possível de espectadores.

Igualmente, só um autor que conhece seus limites e que freqüentemente os ultrapassa pelo bem da própria história é capaz de inserir, com desenvoltura, pensamentos e ações que visam exclusivamente o choque. Ao falar de forma preconceituosa sobre mongolóides (From Dusk Till Dawn), velhos (Jackie Brown), gays (True Romance) e negros (Pulp Fiction); e ao esfregar na cara do público o culto a violência inerente à sociedade (Natural Born Killers), Tarantino abriu espaço para os críticos da sociedade norte-americana saírem do underground para o mainstream. Sucessos de bilheteria e crítica tais como Boogie Nights e Magnólia (P.T. Anderson), American Beauty (Sam Mendez) e Storytelling (Todd Solondz) seriam inconcebíveis antes de Mr. Brown apresentar sua opinião sobre Like A Virgin em Reservoir Dogs. Aliás, repito, Tarantino existe para fazer exatamente isto: mostrar à uma velha “máquina de fazer sexo” (a sociedade) que ela pode sentir-se como uma “virgem outra vez”, mas estas novas verdades não vêm sem dor.

É claro que nem de longe estas sejam as mais importantes contribuições de Tarantino para o cinema. Quentin é o protótipo da “geração VHS”, que cresceu imerso nos produtos comercializados pela própria indústria cultural – videoclipes da MTV, filmes B norte-americanos, filmes asiáticos, europeus, independentes, grandes blockbusters hollywoodianos, quadrinhos de super-heróis, seriados de televisão, documentários e alta cultura mastigada. Quentin se coloca, enqunto pessoa, orbitado por este universo pop: só se vê enquanto indivíduo em relação ao sistema de valores (”gostos”) inerente à própria cultura pop. Resulta disso um cinema que referencia o próprio cinema (já mais do que absorvido pela sociedade). Assim, QT abriu caminho para que outros autores pegassem “emprestados” elementos de outros filmes para colocar nos seus. Chegando ao ápice com Be Kind Rewind, de Michael Gondry, que, não contente em apenas citá-los, refaz, em cena, os próprios filmes de sua adolescência.

O próprio conceito de “autor” foi modificado por Tarantino. Tanto o conceito de autor enquanto cineasta quanto autor enquanto diretor. Primeiro: mesmo nos filmes em que não dirige, seu “dedo mágico” é perceptível em personagens, diálogos e elementos. Anula, assim, o conceito francês de que o cineasta/autor é aquele sujeito responsável pela direção da película – nos filmes de Oliver Stone, Tony Scott e Robert Rodriguez baseados em roteiros de Tarantino é mais correto falar em termos de “co-autoria”. Segundo: a tênue linha entre diretor e trabalho é apagada com Tarantino. A noção de autor é reinventada ao fundir relações públicas e propaganda à sua obra artística. Sobre Tarantino, a celebridade mais verborrágica de Hollywood, é possível dizer que não é o autor que está morto, mas que o seu texto (a soma de seus filmes e roteiros) não existe mais.

Por último, ao admitir o conhecimento excepcional de sua arte (mesmo que o domínio sobre a mesma seja muitas vezes falho), é possível dizer que QT é mais um crítico do que um realizador e que, por isto mesmo, ele tem a capacidade de dizer o que é in e o que é out enquanto cinema, tanto em Hollywood quanto nos independentes. Assim, sua obra torna-se não só referencia para toda uma geração de realizadores, como também marco essencial de estudo e análise desta geração.

Resumindo, Quentin Tarantino não só reinventou a linguagem cinematográfica como também abriu espaços para outros autores serem descobertos pelo grande público (Michael Haneke, Gaspar Noé, Wong Kar-wai, Takashi Miike) e para que outros pudessem realizar filmes que, do contrário, nunca sairiam das gavetas (Eli Roth, John Cameron Mitchell, Guy Ritchie, Tom Tykwer, Chan-wook Pak).

ESPECIAL QT> Resenha: From Dusk Till Dawn (1996)

29 Março, 2008 by Marcio Telles

 

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Na quinta-feira que passou (dia 27), um dos cineastas mais comentados da última década (quiçá do século) completou 45 anos. Trata-se do enfant terrible Quentin Tarantino, cujo trabalho revolucionou a indústria de entretenimento norte-americana, permitindo (sem sombra de dúvida, isto é fato consumado e não está aberto a discussões) que o público norte-americano tivesse acesso a filmes que, do contrário, continuariam inacessíveis. Tarantino recolocou nas mesas de discussões nomes esquecidos como Pam Grier, Bruce Willis, Harvey Keitel, John Travolta (só para citar alguns) e apresentou outros, como Michael Madsen, Tim Roth, Steve Buscemi e Samuel L. Jackson. Mais do que isso, trouxe à tona a geração dos “realizadores malditos” de Hollywood, o pessoal da AIP (Action International Film), e sujeitos como Russ Meyer, Andy Sidaris, Roger Corman que, de tão esquecidos, já estavam empoeirados nas prateleiras de vídeo-locadora. Transformou-os em hits instânteos. Ressuscitou o exploitation e todas as suas vertentes – o que, para desespero dos puristas, repetiu a fórmula que o nosso José Mojica Marins já havia percebido nos idos anos 1960: o que o povão quer é sexo e violência, o resto é viadagem. Hooray!

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Resenha: From Dusk Till Dawn (1996) 

Gênero: Terror
Tempo de Duração: 108 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1996
Estúdio: Los Hooligans & A Band Apart
Orçamento: $20 milhões
Direção: Robert Rodriguez
Roteiro: Quentin Tarantino sobre história de Robert Kurtzman
Produção: Robert Rodriguez e Quentin Tarantino
Música: Graeme Revell
Direção de Fotografia: Guillermo Navarro
Efeitos: Greg Nicotero
Edição: Robert Rodriguez

Elenco
Harvey Keitel (Jacob Fuller)
George Clooney (Seth Gecko)
Quentin Tarantino (Richard Gecko)
Juliette Lewis (Kate Fuller)
Ernest Liu (Scott Fuller)
Salma Hayek (Santanico Pandemonium)
Tom Savini (Sex Machine)
Fred Williamson (Frost)
Cheech Marin (Chet Pussy, Carlos, Guarda da Fronteira)
Danny Trejo (Razor Charlie)
John Saxon (Agente Stanley Chase)

RESENHA: Se o único mérito de From Dusk Till Dawn (aqui Um Drink no Inferno) fosse retirar do mito do vampiro a boilagem associada à sua imagem após Interview With a Vampire, realizado um par de anos antes, já seria um feito louvável. Porém, o primeiro filme da dobradinha Quentin-Rodriguez foi além: conseguiu apresentar personagens interessantes (e hilariantes), rechear o longa com ação intensiva e prestar reverência aos clássicos do gênero vampire.

From Dusk Till Dawn é um filme do gênero “shoot-’em-up” (aqueles filmes com muita pancadaria e um fiapo de enredo) com o agravante de ter vampiros. É claro que, por ser um roteiro de Tarantino, o fiapo foi pro brejo logo na primeira cena, onde uma longa conversa entre o atendente de uma loja de conveniência e o xerife Earl McGraw (guardem esse nome) mostra que nosso roteirista quer chocar. “Não existe uma lei que impeça mongolóides de atender ao público?”, esbraveja Pete. Assim como Tarantino já havia feito com os negros (em Pulp Fiction) e os homossexuais (True Romance e Pulp Fiction), aqui ele usa de sua imagem politicamente incorreta para chocar com o “pensamento padrão” da própria população uma sociedade que disfarça os seus preconceitos. Se fôssemos utilizar a regra da caretice (do cine-horror), poderíamos dizer que é por esse preconceito que tanto o clerk quanto o xerife acabam mortos – afinal, gente preconceituosa tem que morrer mesmo, não?

Mas, é claro, isto é um filme de Quentin Tarantino E de Robert Rodriguez - e as pessoas morrem pela diversão da platéia. O filme não se leva a sério – e isto não é ruim. As situações são absurdas e o clima não se permite “ir esquentando”, como QT pratica em seus longas, já é quente desde o início. Mas quem precisa dessa coisa de começar devagar quando se tem um elenco como esse nas mãos? Além dos tarantinados Harvey Keitel e Juliette Lewis (que, por coincidência, nunca foi dirigida por QT), há também um George Clooney em seu primeiro papel de peso fora de E.R. – e já demonstrando ser um dos melhores atores de sua geração – e há Quentin Tarantino no papel de sua vida: um tarado sanguinolento e ele próprio meio retardado.

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Robert Rodriguez e Quentin Tarantino são melhores amigos na vida real, mas seus estilos não casam. Mais certo é que o estilo de QT seja incompatível com o de qualquer um. Assim como acontece em Natural Born Killers, o gosto dele por longas cenas de diálogos é deixado de lado em favor de ação ininterrupta. O que leva a uma divertida constatação: os filmes mais brutais do “diretor mais violento de Hollywood” (pecha que QT carrega consigo há anos) são exatamente aqueles que ele não dirige. Fato: os filmes dirigidos por Tarantino não são explicitamente violentos, mas o universo em que os personagens se inserem o é.

Impossível fechar esta resenha sem comentar as belíssimas participações especiais. Salma Hayek está deliciosa como Santanico Pandemonium (ótimo nome); há Cheech Marin (da dupla Cheech & Chong) em três papéis distintos, todos divertidíssimos; Danny Trejo, que hoje é mais conhecido por seu curtinha Machete em Planet Terror, mas um nome associado aos filmes B há anos (o cara participou de Guns, dirigido por Andy Sidaris, além de uma extensa lista de produções duvidosas); Fred Williamson, ele próprio um herói dos shoot-‘em-up, como cita em seu monólogo; John Saxon, o rei esquizofrênico de Prisioners of the Lost Universe; e, claro, o maquiador de clássicos como Friday the 13th, diretor da primeira refilmagem de The Night of the Living Dead (1990) e ator de The Dawn of the Living Dead, Tom Savini, na pele (e couro) do memorável Sex Machine.

Enfim, podemos reduzir a fita aos seguintes ingredientes: armas, reféns, peitos, biritas, vampiros e muito sangue. Sou fã de todos os elementos, com certeza. Em outras palavras, é praticamente um Evil Dead com mexicanos ou um Doom com vampiros! Alguém precisa de mais?

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ESPECIAL QT> Parte II: Disparos do Front da Cultura Pop

28 Março, 2008 by Marcio Telles

 

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Na quinta-feira que passou (dia 27), um dos cineastas mais comentados da última década (quiçá do século) completou 45 anos. Trata-se do enfant terrible Quentin Tarantino, cujo trabalho revolucionou a indústria de entretenimento norte-americana, permitindo (sem sombra de dúvida, isto é fato consumado e não está aberto a discussões) que o público norte-americano tivesse acesso a filmes que, do contrário, continuariam inacessíveis. Tarantino recolocou nas mesas de discussões nomes esquecidos como Pam Grier, Bruce Willis, Harvey Keitel, John Travolta (só para citar alguns) e apresentou outros, como Michael Madsen, Tim Roth, Steve Buscemi e Samuel L. Jackson. Mais do que isso, trouxe à tona a geração dos “realizadores malditos” de Hollywood, o pessoal da AIP (Action International Film), e sujeitos como Russ Meyer, Andy Sidaris, Roger Corman que, de tão esquecidos, já estavam empoeirados nas prateleiras de vídeo-locadora. Transformou-os em hits instânteos. Ressuscitou o exploitation e todas as suas vertentes – o que, para desespero dos puristas, repetiu a fórmula que o nosso José Mojica Marins já havia percebido nos idos anos 1960: o que o povão quer é sexo e violência, o resto é viadagem. Hooray!

Então, aproveitando o ensejo e a meta pessoal de ver um filme por dia (e refletir um pouco sobre o mesmo), trago até vocês uma série de matérias a respeito deste jovem cineasta texano que, com poucos anos de carreira, já revolucionou mais o cinema do que muita gente experiente. É claro que, como um bom filme de QT, os artigos não vão respeitar qualquer ordem cronológica, mas a ordem que me dê na telha (hehe). Por isso, vocês lerão a parte dois antes da um. Assim, os assuntos a serem cobertos serão: as origens e influências da “geração maldita” no trabalho de QT; o Tarantinoverso e as referências à cultura pop (a seguir); o banheiro e sua mitologia nos filmes de QT; as suas marcas de direção; e o legado de seu trabalho. E, claro, haverá espaço para algumas resenhas espertas que tentarão um outro enfoque a respeito de seus trabalhos – vocês já pararam para pensar que Jackie Brown é uma fábula sobre o envelhecimento e Kill Bill vol. II é um filme sobre outro filme (nesse caso, Kill Bill vol. I)?

 

2: Disparos do front da cultura pop

Seja numa discussão a respeito de Like a Virgin (Reservoir Dogs, 1992), a diferença entre Big Mac em Paris ou Los Angeles (Pulp Fiction, 1994), a possibilidade de sexo gay com Elvis (True Romance, 1993), uma revisitação de Bonnie e Clyde (Natural Born Killers, 1994) ou a mitologia acerca do Superman (Kill Bill vol. II, 2004), Quentin Tarantino é apaixonado pela cultura pop. Seus filmes dedicam-se a explorar a relação entre a imagem que esses ícones emanam e suas interpretações que as pessoas (no caso, os personagem) obtêm deles.

Então, Like a Virgin é sobre uma “máquina de sexo que encontra um comedor que lhe machuca e faz lembrar que ela já foi virgem”? O verdadeiro uniforme do Superman é seu alter-ego Clark Kent? São opiniões que Tarantino espertamente coloca na mesa e espera que, como um verdadeiro crítico da indústria na qual ele mesmo se insere, isto desperte reflexões nos espectadores. Ele planeja chocar a platéia, cuja cultura (pop) é quase sempre uma via de mão única: uma fonte que sempre jorra sobre nós e para a qual não possuímos proteção alguma. Aceitamos tudo de bom grado, sem pestanejar. E Tarantino existe para instigar esta reflexão: ele está aqui para fazer com que uma “máquina de sexo” sinta-se “como uma virgem” novamente.

Para além disso, a cultura pop é a própria caracterização dos personagens de Quentin. Eles, assim como seus filmes, são mais preocupados com o estilo do que com a substância. Muitas vezes, eles não têm profundidade e, quase sempre, não possuem passado – ao menos, não explicitam em filme suas histórias pregressas (salvas algumas exceções, como Louis em Jackie Brown, e o Reverendo Jacob em From Dusk ‘Till Dawn). Seus temperamentos são definidos por suas próprias relações com a cultura pop. Por exemplo, a interpretação tardia de Nice Guy Eddie sobre a música “The Night the Lights Went Out in Georgia”, finalmente percebendo que Vicki Lawrence (a intérprete) matou o marido traidor – ademais, a música é sobre corrupção policial - revela a “lentidão” de pensamento do mesmo, e a conseqüente demora em “ligar os pontos” sobre o golpe que acabara de sofrer. Outro exemplo: no mesmo filme (Reservoir Dogs), Mr. White, Nice Guy Eddie, Mr. Pinky e o infiltrado Mr. Orange discutem a respeito de seus gostos em comum (filmes B de blaxploitation estrelados por Pam Grier, que mais tarde estrelaria Jackie Brown), mostrando que, mais do que o gosto pela violência excessiva, a diferença entre polícia e ladrão (entre gato e rato) é apenas o lado em que jogam; são todos feitos do mesmo “fermento”. De pronto, já na sua primeira experiência, QT acaba com a discussão que seu trabalho provocaria: violência na TV leva as crianças para o crime… ou para a lei. A resposta não está na cultura pop (no cinema), àquilo o que elas são meros receptores; está em outro lugar. Que lugar? Não cabe a Tarantino responder.

No primeiro filme de Tarantino, Reservoir Dogs, o conceito de autoridade está relacionado com a capacidade de nomear (através de apelidos) os parceiros de assalto. Este cargo cabe a Joe Cabot (Lawrence Tierney). Os criminosos, oprimidos pelos nomes escolhidos pelo chefão, não podem fazer nada mais do que reclamar (Mr. Pinky argumenta sobre a “viadagem” de seu apelido e sugere a troca para Mr. Purple, negado por Joe, pois “já existe outro Mr. Purple fazendo outro trabalho”). Mais do que isso: cada cor exprime o próprio personagem. Mr. Brown, por exemplo, é verborrágico como uma diarréia e tão covarde quanto o próprio adjetivo que parte de seu apelido (“cagão”, Mr. Brown: “Mr Brown? Isto parece merda!”). Mr. Blonde é, assim como uma “loira”, um(a) blonde bombshell, ou seja, um imprevisível – mas irresitível – sex symbol. Que dizer então do sempre zen Mr. White, avesso ao emprego da violência, ou de Mr. Orange, que exprime, em seu próprio apelido, sua função no longa (a de ser “laranja” da polícia entre os criminosos).

Conseqüentemente, todas estas referências à cultura pop são absorvidas pelo próprio trabalho de Quentin Tarantino. Ao “roubar” elementos dos pulps, das histórias em quadrinhos e do cinema de exploitation, Tarantino monta um corpo de trabalho que se auto-referencia. Auto-referencia entre si, de um trabalho para outro (o mesmo terno que Mia Wallace usa em Pulp Fiction é comprado por Jackie Brown no filme homônimo, por exemplo), e que auto-referencia suas influências (o mesmo carro de Vanishing Point (de Richard Sarafian, 1971) é “comprado” pelas garotas do segundo segmento de Death Proof; em From Dusk Till Dawn, Scott veste uma camiseta com as inscrições “Distrito 13″, referência ao clássico de John Carpenter Assault on Precinct 13, de 1976).

São outras referências cruzadas: o mesmo modelo de Honda que Butch Coolidge dirige em Pulp Fiction é dirigido por Jackie Brown no filme de 1997; a espada samurai que Butch utiliza para matar os sádicos em Pulp Fiction está em Kill Bill; Vincent Vega (Pulp Fiction) e Vic Vega (Reservoir Dogs) são supostamente irmãos; em Death Proof, alguns personagens aparecem bebendo refris de um restaurante chamado Acuna Boys, citado em Kill Bill; Reservoir Dogs, Pulp Fiction, From Dusk ‘Till Dawn e Death Proof possuem referências a uma cadeia de fast-food chamada Big Kahuna Burger – “essa cadeia havaiana de hambúrgueres”, diz Jules em Pulp Fiction, ao passo de que, em Reservoir Dogs, Mr. Blonde aparece no esconderijo tomando refrigerante num copo de plástico do restaurante. O xerife Earl McGraw aparece tanto em Kill Bill e Death Proof, quanto em From Dusk ‘Till Dawn e Planet Terror (escrito e dirigido por Robert Rodriguez).

Uma referência cruzada a qual se dá pouca importância: as botas utilizadas por Vic Vega em Reservoir Dogs (e de onde ele retira um canivete) são as mesmas com as quais Beatrix Kiddo é enterrada em Kill Bill vol. II, inclusive o canivete. E, de forma metafórica, são citadas em Natural Born Killers, quando Mallory é espancada e, grogue, recita a música de Nancy Sinatra: “These boots are made for walking, and that’s just what they’ll do, one of these days these boots are gonna walk all over you”. Ou seja, exatamente o que as botas “fazem” nos dois outros filmes.

Resenha> Robo Vampire

26 Março, 2008 by Marcio Telles

Gênero: Filme B de Artes Marciais, de Terror, de Comédia, de Ficção Científica, de Romance, etc

Tempo de Duração: 90 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1988
Estúdio: Filmark International Ltd.
Direção: Joe Livingstone (Godfrey Ho)

Elenco:
Robin McKay
Niam Watts
Harry Myles
Joe Browne
Nick Norman

RESENHA: “O agente de Narcóticos Tom Wilde recebe uma segunda chance quando uma operação futurista salva a sua vida. Ele retorna à vida como um Androibot, meio homem-meio máquina. Sua primeira missão é adentrar o Triângulo Dourado para resgatar uma agente que está sendo mantida em cativeiro pelo maligno Yeung”, segundo a capa do VHS. Mas isto não é tudo! Do lado dos bandidos (eu acho), um grupo de traficantes orientais passa a utilizar vampiros chineses como mulas para suas drogas. Tudo se complica quando a esposa fantasma de um dos vampiros retorna, exigindo um casamento com seu falecido, que agora, além de um vampiro, tem a cara do Dr. Gori. Do lado dos mocinhos (talvez), um grupo mercenário é contratado para “ajudar” a investigação do nosso herói, mas nunca toma conhecimento do mesmo. Para completar, o filme se chama Robo Vampire. O FILME SE CHAMA ROBO VAMPIRE, e se leva muito a sério!

Esforcei-me muito para resumir o enredo do filme logo acima. Por mais que eu conseguisse explicar o enredo do filme, eu não entenderia, nem me batendo com um gato morto na cabeça. Isso acontece por que Robo Vampire não é UM filme ruim: são DOIS filmes ruins juntos, transformados num único graças às maravilhas da mesa de edição. O resultado é tão B, mas tão B, que um enredo que mistura TRAFICANTES JAPONESES, VAMPIROS CHINESES, UM SÓSIA DO ROBOCOP, MERCENÁRIOS TAILANDESES, O EXÉRCITO AMERICANO, UM BARÃO DA COCA EUROPEU, UM SACERDOTE PROPENSO A SE ACHAR O NOVO DR. MOREAU, UM PADRE VICIADO, UMA COROINHA GOSTOSA, UM FRANGO ASSADO VOADOR, UMA FANTASMA DE TOPLESS E UM VAMPIRO-MACACO QUE SOLTA FOGOS-DE-ARTIFÍCIO PELAS MÃOS se torna perfeitamente aceitável.

 

A vampirada pula solta em Robo Vampire

O filme começa com dois soldados americanos numa missão na selva. Eles encontram alguns caixões espalhados no chão. Quando vão inspecioná-los, são surpreendidos por uma cobra saltitante (voadora, voadora! A cobra realmente voa!) e um punhado de vampiros chineses - que, prestem atenção, não são como os nossos europeus: eles são meio necrosados (pelo menos, acho que [e isso que a “maquiagem” geléia de framboesa na cara deles significa) e movimentam-se por pulinhos. Os vampiros saem pulando atrás dos dois soldados, enforcam um e, quando vão atacar o outro, são atacados por um lutador de kung fu que era prisioneiro dos americanos. Pouquinho de artes marciais são exibidas terrivelmente (no mau sentido), e o vampiro sai vencedor, após detonar um pedaço de bife (literalmente) do pescoço do outro soldado. O lutador de kung fu desaparece tão rápido quanto surgiu e aparece na tela o título “ROBO VAMPIRE”. Corta para um bando de traficantes japoneses, carregando um navio. Um barão da coca europeu reclama com seus subordinados japas que os porcos deram flagrante em mais uma de suas ações. “Tenho que achar uma maneira de me livrar do Tom, aquele ótimo policial”, diz o fulando (guardem o nome de Tom). A idéia que ele arranja é tão óbvia que você já deve ter pensando nisso um zilhão de vezes: arranjar um monge taoísta com quedinha por ser o novo Dr. Moreau, que cria vampiros chineses para servirem de mulas para suas drogas (a cena onde drogas são “escondidas” dentro dos vampiros é antológica). Segue a única cena PROPOSITALMENTE cômica do filme: dois empregados traficantes vão para o porão do navio/casa/onde quer que seja para alimentar os vampiros-chineses-mulas-saltitantes. Como ficam com medo deles, acabam alimentado-os a distância (vampiros tailandeses comem frango assado!). Algo vai mal e os vampiros acordam, prontos para papar os dois bocabertas. Eis que surge o Dr. Moreau para salvar o dia e recolocar os vampiros para dormir - com uma vela!

 

Cenas de violência gratuita de OUTRO filme

Corta para uma mulher escondendo drogas no bucho de uma VACA MORTA DE VERDADE. Isto não só é uma novidade em Robo Vampire, como é totalmente um novo filme. Se existem vacas mortas como mulas, por que diabos os vampiros são mulas também? Não que faça diferença: essa cena é única; não existe mais menção alguma dela no restante do filme. Aliás, ela nem ao menos faz parte desse filme! Então, esqueçamos que vimos uma vaca morta de verdade de buxo aberto e voltemos ao nosso filme.

 

Da esquerda para a direita: um executivo, um pai norte-americano e um sacerdote taoísta

Em algum outro lugar, o Dr. Moreau/Sacerdote Taoísta recebe a visita de um executivo e um… um… PAI tipicamente norte-americano, com um moletom escrito “RACING”. Obviamente, ele não sabe o que faz no filme, então age conforme o outro. O outro, o executivo, exige que o Dr. Moreau mostre o Super-Vampiro desenvolvido pelo nosso sacerdote. O Super-Vampiro não só possui super-poderes (como soltar fogos de artifício pelas mãos), mas também veste UMA MÁSCARA DE GORILA! Neste exato momento, surge uma fantasminha seminua que se apresenta como Christine. Nada melhor como a própria moça para explicar o que diabos está acontecendo:

CHRISTINE: “Como ousas pegar o meu amado Peter e transformá-lo num Super-Vampiro? Agora ele está condenado a voltar dos mortos, e nós nunca poderemos estar juntos no além-vida! “

DR. MOREAU: “Mas ele é oriental e você ocidental, como explica?”

CHRISTINE: “Nossos pais não gostavam da diferença de raças, e por isto mesmo oposuram-se ao nosso casamento! Então nós decidimos: se não pudéssemos ficar juntos nessa vida, Peter e eu ficaríamos juntos para sempre na outra vida. Você roubou isto de mim ao transformá-lo num Super-Vampiro! Agora, meus pensamentos são de vingança!”

Ah, tá, claro!

Bem, se você não ficou chocado com a história da fantasminha seminua, saiba que o executivo ficou. E ele propõem, então, que o casamento seja realizado. O sacerdote relutantemente aceita, com a condição de que eles o obedeçam depois. E Peter e Christine viverão felizes para sempre…

Nah! É claro que não! Isto aqui é ROBO VAMPIRE, e se leva muito a sério! Muito possivelmente no dia seguinte, o sacerdote é emboscado por um grupo de soldados americanos. Ele conjura vários vampiros - que saem de debaixo da terra - para livrar-se da encrenca. No meio da luta, Peter/Super-Vampiro/Gorila mata um dos soldados com os fogos de artíficio que saem de suas mãos. O soldado morto - que descobrimos se tratar de Tom, o personagem principal do filme, mencionado EM UMA FRASE anteriormente - é levado de volta para o QG da tropa, onde passa por um moderno procedimento científico e torna-se o Robo do título.

 


Christine, a fantasminha semi-nua

Esperem! Antes, rola um monólogo fantástico de algum sujeito que aparece pela primeira vez. Ele vira-se para um soldado com aparência de adolescente e diz: “Como Tom está morto, eu desejo usar seu corpo para criar um robô tipo andróide, Sr. Glen. Gostaria que você aprova-se minha aplicação”. Mr. Glen - o adolescente - concorda.

Na sala de cirurgia, no meio de avançados equipamentos médicos como um rádio com sinais de + e de - e uma furadeira elétrica, Tom é transformado numa mistura de Robocop com lixeiro. Todas as partes que deveriam ser de metal em sua armadura transforma-se milagroasamente em nylon, papelão e papel alumínio.

A moderna máquina de fazer androibots

Chegamos a um terço do filme. Ufa!

Aparece então uma cena de violência aleatória. Esta é uma cena do OUTRO filme, qu está prestes a começar! O outro filme não tem traficantes japoneses, vampiros chineses, um sósia do Robocop, o exército americano, um sacerdote com propensão a se achar o novo Dr. Moreau, um frango assado voador, uma fantasma de topless e um vampiro-macaco que solta fogos-de-artifício pelas mãos. Mas tem um grupo de mercernários tailandeses, um barão da coca europeu, um padre viciado, uma coroinha gostosa e um bando de caras que luta kung-fu muito bem (ao contrário do outro filme).

De qualquer forma, eis o que acontece: aparentemente, na COLÔMBIA ou no MÉXICO, um bando de caras que nunca vimos antes invade uma “igreja” (na verdade, uma salinha com uma cruz e um mini-altar) e perguntam ao Padre onde está a droga deles. O Padre se faz de besta e tenta esconder a droga (na cruz - será uma crítica à Igreja Católica aqui? Naaah!). Eis que é descoberto e atacado pelo grupo. Surge, então, para delírio do macharedo, a Coroinha Gostosa (que mais tarde saberemos que se trata de Sophie), com um AR-15 metendo chumbo no bando de mau-encarados.

Encurralada dentro da salinha, não resta à Sophie nada a não ser saltar pela janela, na cena de dublê mais fajuta da história: não só o dublê não é uma mulher e branca; o dublê é UM HOMEM ASIÁTICO DE BIGODE, MAIS VELHO E MAIS BAIXO do que Sophie. E, Meu Deus, ele é claramente perceptível sem a necessidade de slow-motion.


Coisa que aprendi com Robo Vampire: Coroinhas gostosas viram sujeitos baixinhos e bigodudos ao pular janelas

A Coroinha/Sophie/Sujeito de Bigodes é levada então para uma prisão ou um acampamento, onde é presa e violentada. Também é torturada, com a mais maligna de todas as torturas já exibidas em filmes: a TORTURA DO PINGO. Isso aí! A água fica pingando incessantemente em seu rosto - o que aparentemente é horrível, pois ela fica mexendo a cabeça de um lado para o outro e implorando para que parem.

Enfim, no meio da selva, um soldado americano (acho que é o Glen, se não me perdi no meio de tantos personagens sem nome) fala com um sujeito que nunca apareceu antes sobre Sophie. Não só o sujeito não apareceu antes, como esse sujeito NÃO FAZ PARTE DESSE FILME. Ele está numa locação completamente diferente, com uma iluminação completamente diferente, olhando para um lugar completamente diferente de Glen. De qualquer forma, graças ao Editor sem-nome, ao plano e contra-plano e aos intrépidos dubladores (o filme não tem créditos finais), ele concorda que precisa fazer algo para salvar Sophie. Então, contrata um grupo de mercenários tailandeses liderado por Ryan para dar conta do recado.

No filme número 2, que se passa na Colômbia, o grupo de mercenários tailandeses encontra um sujeito com a mesma tatuagem na mão que segura Sophie na foto que usam como identificação da moça (que foto?). Tiram o sujeito da sua queda-de-braço matinal e fazem com que ele se junte ao grupo. Com o passar do tempo, o sujeito encontra-se tão à vontade com seus novos amigos que até afirma querer vingar-se do seu antigo chefe. Na mesma seqüência, surge também uma garota japa que vai apaixonar-se pelo herói do filme #2, Ray, após ele passar-lhe a irresistível cantada numa cachoeira: “Que bela vista! Você deveria banhar-se mais seguido!”. Garotão!

 


“Que bela vista! Você deveria banhar-se mais seguido!”

No filme #1, Robo/Tom - segundo o argumento no box do DVD - também está atrás de Sophie. Não que ele saiba disso. Em certo momento, o Robo é emboscado pelos traficantes japas, que metem um foguete de napalm nele. Como o napalm só queima numa linha horizontal reta, Tom (isso é, o Robô, não se perca!), resolve esconder-se atrás de um banco de areia. Quando as chamas apagam, ele sai do esconderijo e é surpreendido por um bando de vampiros - que até então estava enterrado na praia. Como o Napalm não funcionou, os sujeitos do filme #2 resolvem detonar Tom com um lança-foguetes. O Robô explode, mostrando para nós que ele não era nada além de um boneco de pano. Mas nem tudo está perdido! De volta ao QG dos americanos, o Robô é novamente reconstruído e sai para a batalha.

Na Colômbia, Ray e o pessoal do filme #2 se depara com uma cidade arrasada após um sujeito não querer dar sua cerveja para um brutamontes armado. O brutamontes armado e seus comparsas também brutamontes e também armados detonam o vilarejo, deixando todos mortos. Na sua passagem pelo local, os heróis do filme #2 deparam-se com um garoto - que prontamente é despachado pelo Sujeito-Fardado-de-Aluno-do-Colégio-Militar, único que viu uma granada nas mãos do menino. Esta cena não faz o minímo sentido e sua importãncia para a história é nula. Mas assim o é todo o resto do filme também!

 

Tremei Murphy!

De volta ao filme #1, nosso amigo Robo/Tom está recuperado e já em busca dos vilões. Ele depara-se com Christine/Fantasma e seu marido Peter/Super-Vampiro/Gorila… fazendo amor. Ou, pelo menos, é o que dizem. Na verdade, eles estão dando saltinhos e esfregando as mãos. Mas, quando são pêgos pelo robozão, Christine implora: “Não nos mate, nós nos amamos! Você pode nos matar quando nosso amor for consumado!”. Peraí, eles já não estão mortos? Quando o amor deles for consumado? Como assim? Tom não tem tempo de pensar nesses assuntos, já que sua memória entrou num processo de flashback, onde ele se lembra de quando seu amor terminou com ele. No flashback, Tom tem a voz do Xerxes (do 300) e sua namorada soa como um robô que apenas repete: “Deixe-me… sozinha…”. O que importa no flashback - ACHO! - é que Tom associa amor à dor, e resolve acabar com os dois amantes do mesmo jeito.

 

Aprenda geografia com Robo Vampire: a Colômbia faz fronteira com a China, e Tóquio é rodeada por florestas sub-tropicais!

Infelizmente, somos cortados para o filme #2, onde nossos personagens parecem estar bem próximos da fronteira entre a Colômbia e a China, já que estão sendo perseguidos pelo Barão da Coca Europeu em pessoa (ele não fazia parte do outro filme? Ah, edição, edição). Em certo momento, Ray faz uso de seu magnífico .38 e mata, com um só tiro, três bandidões. Então ele pega sua namorada japa e pula para dentro de um periférico, por onde finalmente cruza a fronteira. Isso faz com que esqueçamos do ridículo da cena anterior onde, resumindo, uma fantasma e seu amante vampiro-gorila pediram a um robô caçador de traficantes que não os matassem antes de terminarem sua trepada.

Repetindo:

NA CENA ANTERIOR, UMA FANTASMA E SEU AMANTE VAMPIRO-GORILA CHINÊS PEDIRAM AO ROBÔ CAÇADOR DE TRAFICANTES QUE NÃO OS MATASSEM ANTES DELES TERMINAREM SUA TREPADA!

Mais uma vez:

NA CENA ANTERIOR, UMA FANTASMA E SEU AMANTE VAMPIRO-GORILA CHINÊS PEDIRAM AO ROBÔ CAÇADOR DE TRAFICANTES QUE NÃO OS MATASSEM ANTES DELES TERMINAREM SUA TREPADA!

Sacou?

Por óbvios caprichos de edição, o pessoal do filme #2 vai parar no acampamento/prisão onde Sophie está presa. Logo eles encontram-se também precisando de ajuda, mas logo a recebem e dão um jeito de quebrar todo mundo. Eles soltam Sophie e a livram das garras do Chinês-Canastrão que a mantinha em cativeiro, e então estão prontos para deixar o filme para sempre.

Corta para o Robo/Tom dando um rolê por Tóquio (TÓQUIO?) à procura de traficantes japas para meter bala. Ele depara-se com Christine e Peter, que parecem ter esquecido ou consumado seu ato sexual, pois estão prontos para rasgar o papel alumínio do robozão. Eles recebem a ajuda de mais alguns vampiros (e do Pai norte-americano, o “Racing”!), e dão uma sova em Tom, que de alguma maneira consegue se livrar de todos - menos Peter, o Super-Vampiro com a cara do Dr. Gori. Começa então a cena de perseguição mais rídicula da história, já que Peter - que vai na frente - apenas pula e Tom - que vai atrás - caminha feito o Robocop Gay. Em algum momento da perseguição, em alguma ponte de Tóquio, Peter depara-se com um bando de turistas ocidentais e pega alguns dele como reféns.

 

A fantasminha finalmente fica nua para encarar o sacerdote taoísta!

Dr. Moreau/Sacerdote Taoísta, que há tempos não dava as caras, aparece para o acerto de contas com Christine, que finalmente fica com os seios completamente à mostra. Com um dedinho, o Sacerdote derruba Christine/Fantasma Nua no chão, que começa a ter um ataque de risos e morre. De novo.

(Não me perguntem como acaba o seqüestro, porque eu não sei).

 

O robozão e seu lança-chamas!

Então Tom/Robô é encurralado (novamente) no meio de Tóquio pelos vampiros e o Sacerdote. Há o confronto final entre Tom e Peter, que dura 20 segundos, e resume-se numa patética seqüência de Peter/Super-Vampiro levantando os dedos e atirando fogos-de-artifício sem resultado seis vezes seguidas. Percebendo que sua maior criação está fraca, o Sacerdote começa a orar por ajuda, quando é atacado por Christine/Fantasma Seminua (vestida de novo!), que voltou dos mortos mais uma vez para vingar-se. O cara morre e então algo explode, e Robô/Tom percebe que sua arma não é um fuzil, mas sim um lança-chamas (!), e bota fogo em tudo.

THE END.


Aleluia, irmãos!

Vocês notaram que o filme acaba com várias perguntas em aberto? Pois bem. Já que o filme TINHA que ter 90 minutos (e tem, cravados), e eram dois filmes, o jeito foi usar um pouquinho de cada. O que aconteceu com o barão da coca? E Sophie? O grupo de mercenários? Afinal, que diabos aconteceu no filme? Quando vi Robo Vampire pela primeira vez, em 2003, junto do meu tio, tive a clara sensação de que se tratava de um filme único. Na época não entendia inglês muito bem, e fiquei realmente confuso no meio de tanta coisa acontecendo. Por algum motivo muito estúpido (chamado cerveja), também não havia me dado conta de que se tratava de dois filmes misturados. Isto ficou muito mais claro agora. Continuo com uma certeza: Robo Vampire, do jeito que está, é o pior filme do mundo! O filme não apenas é mau atuado, como em nenhum momento nós temos noção da onde se passa a ação, quanto tempo decorreu desde dado fato, quem são os mais de trinta personagens que povoam a tela, etc. Aliás, Livingstone, se você quer que tenhamos pena pelo personagem principal, Tom, faça-o aparecer em cena mais do que uma frase antes de matá-lo!

Na verdade, “Joe Livingstone” é uma das tantas alcunhas de GODFREY HO (Chi Kueng Ho), o mestre dos filmes Z de Hong Kong. Especialista na técnica de “copiar-e-colar”, Godfrey normalmente filma uma produção, utilizando atores caucasianos, e depois mistura estas cenas com vários outros filmes, tentando fazer com que eles se tornem uma história coerente através da dublagem. Normalmente, os filmes utilizados como inserção são produções asiáticas (chinesas, tailandesas ou filipinas) não-finalizadas ou antigas. Desta forma, ele faz quatro ou cinco filmes (bombas) do orçamento de um(a). Atualmente, ele dá aulas de cinema na Hong Kong Film Academy. (Leia três vezes a última frase).

NOTA: starinvertida.jpgstarinvertida.jpgstarinvertida.jpgstarinvertida.jpgstarinvertida.jpgstarinvertida.jpgstarinvertida.jpgstarinvertida.jpgstarinvertida.jpgstarinvertida.jpg
(Como filmes B tem suas cotações invertidas, e Robo Vampire são dois filmes juntos, sua nota foi duplicada. Sim, ele conseguiu duas vezes a nota máxima! Isto é, 5 + 5 com louvor!)
Este post foi originalmente publicado no meu antigo blog, Cabeça de Película. Com alterações.

 

Resenha> The Lost Empire (1985)

25 Março, 2008 by Marcio Telles

Gênero: Filme B de artes marciais
Tempo de Duração: 83 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1985
Estúdio: Harwood Pictures
Direção: Jim Wynorski
Roteiro: Jim Wynorski
Produção: Raven De La Croix
Música: Alan Howarth
Direção de Fotografia: Jacques Haitkin
Efeitos: Ernest D. Farino
Edição: Larry Bock

Elenco:
Melanie Vincz (Angel Wolfe)
Raven De La Croix (Whitestar)
Angela Aames (Heather)
Paul Coufos (Rick)

RESENHA: Após o policial Rob Wolfe ser morto enquanto tentava parar uma gangue de ninjas de assaltar uma joalheria, sua irmã, a policial Angel Wolfe, decide vingar sua morte. Sua investigação leva ao misterioso Dr. Sin Do, que supostamente é assessorado pelo necromante mago Lee Chuck. O doutor está promovendo um concurso de artes marciais no seu forte secreto. Lá, Angel, após juntar-se com duas amigas lutadoras (Raven e Angela), entra no torneio a fim de dar umas porradas em Sin Do em nome do seu irmão.

Depois de ler o argumento acima, você se pergunta: “Diabos, onde está o Império do título?”. Seguinte: para aumentar a enrolação, existe uma história sobre a Lemúria antiga, onde todo o poder desta incrível civilização perdida foi colocada em duas orbes que, se juntadas novamente, podem dar o poder do mundo para quem as possuir. Onde isso se encaixa no roteiro? Em algum lugar entre as intenções de Sin Do (excelente nome, não acharam?) e Lee Chuck (que não sejam curtir garotas semi-nuas lutando).

As “atrizes” são três gostosas peitudas, que usam pouca roupa e atiram frases extremamente não-convicentes. Uma delas merece ser citada: Raven Delacroix, a esquecida bimbo do Up! de Russ Meyer, como a “índia” Whitestar. O filme é produzido sua e ela aparece em nu frontal no finalzinho. Outro que merece ser lembrando é Angus Scrimm, o malvadão Sin Do, da série Phantasm. Mas o destaque vai mesmo para Paul Coufos, como o interesse romântico de Wolfe, Rick. Cara, o bigodinho canastrão não deixa ninguém ter dúvida de que se trata de um belo exemplar do cinema B.

“Quietas, isto não é um piquenique!” (tradução literal!)

A primeira aparição de Wolfe é clássica: ela aparece toda de preto, do capacete aos coturnos, pilotando furiosamente uma Kawasaki. Invade um jardim de infância onde crianças são mantidas reféns pelo grupo de ladrões mais imbecis dos filmes B e detona todo mundo. Obviamente que ela teve a “ajudinha” de um dos ladrões, que resolveu desafiá-la com canivete enquanto ela exibia seu .38 (!). Outras cenas memoráveis incluem a “conjuração” de Whitestar (Raven), surgida no meio de uma aldeia indígena; a luta na prisão de Heather (Angel) contra uma detenta que não se veste com o uniforme do encarceiramento (ela tá mais para uma S&M Queen do que prisioneira); Paul Coufos sendo “assediado” por dois gays caricatos; e a cena inicial, onde um velhinho chinês fica cuidando os peitos da sua cliente sem perceber que sua loja está lotada de ninjas com intenções no mínimo duvidosas.

O diretor, Jim Wynorski, é mais um dos realizadores com a tradição de se esconder atrás de pseudônimos devido à quantidade de porcarias que fazem. Assim, ele é conhecido também como H.R. Blueberry, Harold Blueberry, Bob E. Brown, Daniel Fast, David Gibbs, Heny Henri, Noble Henri, Nobel Henry, Noble Henry, Tom Popatopolous, Arch Stanton, Jamie Wagner, Thaddeus Wickwire e, mais frequentemente, Jay Andrews. Somente assim ele foi capaz de dirigir 68 filmes, segundo o IMDB, e continuar na ativa, com diversas produções direto para vídeo e TV. Atualmente, finalizou The Breastford Wives (sim, Breadford Wives versão sexploitation, hooray!), filme que estou verdadeiramente ansioso para ver!

Num filme destes não poderia faltar uma aranha-robô, poderia?

O certo é que Jim Wynorski bebeu da fonte de Ed Wood para fazer um exploitation estupidamente estúpido! Todas as coisas realmente (des)agradáveis que você poderia esperar de um filme B estão lá: péssima atuação, roteiro cheio de balões, figurinos esdruxúlos, decoração de set precária e efeitos “especiais” ruins até mesmo pra época. O mais bacana é que o filme faz o favor de não se levar a sério em nenhum momento (o que faz dele, apesar de possuir a mesma premissa de muitos filmes do Van Damme, bem mais “assistível” que os filmes do dito cujo). Como a intenção do filme é ser um filme B com mulheres gostosas em roupas sumárias lutando, considero-a inteiramente cumprida!

Enfim, qualquer filme que tenha frases do tipo “Se você for à escola, punk, melhor aprender a contar” merece ser posto em um altar e reverenciado simplesmente por ter sido filmado. Um sério concorrente para o título de PIOR filme de todos os tempos. É sem sentido e estúpido, mas também é divertido, ágil e repleto de belas garotas com pouca - ou nenhuma - roupa. Uma bela maneira de se perder uma tarde!

FRASE FAVORITA: “Eu odeio aranhas-robôs”

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(filmes B têm suas cotações invertidas!)
Este post foi originalmente publicado no meu antigo blog, Cabeça de Película. Com alterações.

Resenha> Prisioners of the Lost Universe (1983)

24 Março, 2008 by Marcio Telles

Gênero: Filme B de ficção científica
Tempo de Duração: 94 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1983
Direção: Terry Marcel
Roteiro: Terry Marcel
Produção: John Hardy
Música: Harry Robertson
Direção de Fotografia: Derek V. Browne
Efeitos: Ray Hanson
Edição: Alan Jones

Elenco:
Richard Hatch (Dan)
John Saxon (Kleen)
Kay Lenz (Carrie)
Peter O’Farrell (Malachi)
Ray Charleson (The Greenman)

RESENHA: Uma jornalista mal-comida, após presenciar o teste de um teletransporte de um cientista maluco, vai parar numa outra dimensão. Acompanhada de um eletricista lutador de kendô, ela é capturada por um violento rei (John Saxon), que planeja fazer dela uma escrava. O eletricista, Dan, reúne-se com várias criaturas fantásticas (um elfo verde, um anão ladrão e um… um.. homem-bicho) para salvá-la das garras do malvadão. Há de se convir que existe uma certa criatividade na história, e uma certa inteligência em algumas partes. Mas prestem atenção no seguinte: um cientista maluco (assim chamado no próprio filme, caso existam dúvidas) testa seu teletransporte durante uma série de terremotos na Califórnia. Com certeza haverá um acidente, não? Para completar, é preciso de alguma maneira inserir o herói na história. Como? Bem, fazendo ele se acidentar no trânsito com a mocinha, então ele fica a pé e acaba indo parar na única casa das redondezas - a do cientista maluco, claro! Durante o desenrolar da história, a quantidade de “confusões” que Richard Hatch se mete atrapalha o desenrolar mas, acreditem!, já vi coisas muito piores.

Key Lenz prova que é uma garota difícil

É uma puta sacanagem falar em “linguagem cinematográfica” em filmes como este. Terry Marcel até consegue umas cenas bacaninhas mas, no geral o filme todo se parece muito igual. Tem o jeitão dos filmes da Sessão da tarde: ângulos tradicionais, figurinos bagaceiros, edição de som ruim pacas e uma trilha sonora de gosto, no mínimo, duvidoso. De positivo é a mesma “sobriedade” de Marcel, que não sai colocando a câmera em todos os lugares possíveis, evitando assim uma confusão pros incautos que gastam seu tempo assistindo este “filme”.

Charleson: “o que estou fazendo aqui pintado de verde?”

Apesar de John Saxon ter um currículo considerável (A Nightmare On Elm Street, From Dusk till Dawn), o seu personagem (Kleel) é o mais “vazio” de todo o elenco. Às vezes ele é um durão filho de uma puta com mania de grandeza que fala na terceira pessoa, outras horas ele é um inteligente arquiteto do Caos (sim, com “c” maiúsculo para provar a breguice). Kay Lenz interpreta uma jornalista mal-comida com certa desenvoltura (apesar de duvidar serem essas as intenções originais da personagem) e Rich Hatch (o Capitão Apollo de Battlestar Galactica em pessoa) mostra todos seus dotes como um eletricista também lutador de kendô (uma solução muito perspicaz para o roteiro, admitam). Peter O’Farrell como Malachi, o anão, e Ray Charleson, o elfo verde, também são convicentes nos seus papéis - mesmo que eles sejam não sejam nem um pouco críveis.

Rich Hatch lamenta o fim de Battlestar Galactica

A premissa é batida, as soluções do roteiro são tosconas, o visual é datado mas… eu me diverti pacas. As atuações são convicentes, mesmo os personagens sendo vazios (no caso do Elfo Verde), escrachados (Malachi), exagerados (a jornalista mal-comida) e contraditórios (Kleel). O problema é que fazer um filme desses em 1983, na Grã-Bretanha, não era muito promissor. No mais, entre Eragon e Prisioners of the Lost Universe, ficamos com o último!

Atenção para a cena “Peter Jackson atolado na lama”!

Para provar que todo o filme tem o seu quê de didatismo, eis o que aprendi com esta obra: na Califórnia, os residentes dirigem carros com a direção na direita (como os ingleses); cavalos selvagens são encontrados na natureza com selas e prontos para serem montados; e, caso você tenha sede durante uma visita campestre, você pode enfiar um canudinho no solo e chupar até sair água!

FRASE FAVORITA: “Eu não confio nele! Ele é… verde!”

NOTA: starinvertida.jpgstarinvertida.jpgstarinvertida.jpg
(filmes B têm suas cotações invertidas!)
Este post foi originalmente publicado no meu antigo blog, Cabeça de Película. Com alterações.

Resenha> I Am Legend (2007)

23 Março, 2008 by Marcio Telles

 

Legend

Gênero: Ficção científica de terror
Tempo de Duração: 100 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2007
Estúdio: Warner Bros.
Orçamento: $150 milhões
Direção: Francis Lawrence
Roteiro: Akiva Goldsman e Mark Protosevich
Produção: Akiva Goldsman
Música: James Newton Howard
Direção de Fotografia: Andrew Lesnie
Efeitos: Quantum Creation FX e Tatopoulos Studios
Edição: Wayne Wahrman

Elenco
Will Smith (Robert Neville)
Alice Braga (Anna)
Charlie Tahan (Ethan)
Dash Mihok (Homem Alfa)

RESENHA: O primeiro plano geral que temos de Eu Sou a Lenda já impressiona: a cosmopolita Nova Iorque completamente deserta, prestes a virar uma floresta. Quase um deserto, o entulho deixado pelos já fantasmagóricos humanos tomam conta da outrora “capital do mundo”. Trovejando por este cenário desolado, está Robert Neville dentro de um rápido automóvel, ansioso para encontrar, entre os novos habitantes da metrópole, um que lhe sirva de comida. Convincente.

A história do filme se passa em 2012, três anos depois de uma doutora criar uma mutação do vírus da rubéola que se mostrou eficaz na cura do câncer. Porém, o vírus mutou novamente para algo mortal: um vírus semelhante à raiva, que matou 90% e transformou 9% em criaturas agressivas, sedentas por sangue e com forte rejeição aos raios ultravioletas – o que os força a habitarem locais escuros e só saírem à noite. Encarregado, ainda na época do início do contágio, a descobrir uma cura está o cientista militar Robert Neville (Smith), que ainda não desistiu de sua missão. Pertencente ao 1% da população que é milagrosamente imune ao vírus, Neville é o último habitante de Nova Iorque. Ele e sua cadela Sam.

A premissa de Eu Sou a Lenda é simples e eficaz. Baseado no romance de um dos bastiões da ficção científica norte-americana, Richard Matheson, o livro já foi adaptado outras duas vezes para o cinema: em The Last Man on Earth (1964 – dizem que Romero tirou a idéia para seus zumbis daí) e Omega Man (1971, com Charlton Heston no papel principal). Confesso que não vi as duas versões anteriores tampouco li o livro e que, talvez por isso, meu julgamento desta versão realizada por Francis Lawrence seja afetado. Basicamente por que gostei do filme. Estraçalhado pela crítica, que pareceu se preocupar mais nas hipóteses científicas do que no conteúdo humano da fita (1 – filmes são filmes; e 2 – filmes de terror são sobre pessoas), Eu Sou a Lenda acabou não emplacando muito nos EUA, mas detonou mundo afora (quase meio bilhão em bilheteria). Bom para nós, ruim pros gringos…

O que funciona? Basicamente, quando se tem um bom diretor e um bom ator principal, o resto deixa de ser essencial. Quando a isso se juntam um bom roteiro, bons efeitos e algumas indagações interessantes, é criado um hit. É mérito de Lawrence a tensão criada na primeira cena em que somos apresentados aos monstrengos – Lawrence sabe manter nossa adrenalina lá no alto postergando ao máximo a aparição deles. Quase sentimos a respiração ofegante e o medo inebriante que sente Neville enquanto procura o seu cãozinho. E, se como certo crítico você está achando ridículo um cara durão arriscar a própria vida atrás de seu animal de estimação, vá fazer a lição de casa e assistir à Alien – O Oitavo Passageiro. Além do mais, Sam é o único ser vivo que impede Neville de ficar biruta e conversar com bonecos – ponto provado mais adiante no filme.

É mérito de Smith a empatia criada quase que instantaneamente com seu personagem. Ao contrário do personagem principal de 30 Dias de Noite, Eben Oleson, aqui somos levados a nos preocupar pela segurança de Neville. E seu background está lá na medida certa, mesmo que boa parte dele pouco acessível (eu disse que ele fora encarregado de descobrir um antídoto? Hm, eu intui isso). Que é mérito de um bom roteiro, aqui obra de Akiva Goldsman. O roteirista de Uma mente brilhante acerta a mão em buscar referências dentro do mundo pop para expressar a solidão e a missão de Neville (belas referências em Bob Marley e no diálogo de Shrek dublado por Neville). E, se decepciona em algo, é nos efeitos especiais: mas não por serem ruins (longe disso). Como um fanboy oldschool de terror, esperava ver protéticos e maquiagens pesadas nos monstrengos. Porém, o diretor Lawrence não gostou dos testes de maquiagem e resolveu fazer tudo em CG. O resultado é convincente.

Quanto às indagações, atentem para algumas falas depois da aparição da personagem de Alice Braga na tela. Mesmo que diluído na roupagem cool de um filme pop, a indagação sobre Deus é interessante. Afinal, nossas atuais (e futuras) experiências com engenharia genética não é nada mais do que meter o bedelho onde não fomos chamados? “Deus não fez nada disso, fomos nós que fizemos”, diz um estressado Neville a certa altura. A fé cega de Anna (Alice Braga, fraca, mas não comprometedora) em um Deus que o destino controla é o antípoda da busca racional e cheia de culpa de Neville, que é ele mesmo prisioneiro do próprio destino.

Talvez você não tenha visto nada disso. Tudo bem, eu vi e gostei. Recomendo!

P.S: Alguém mais reparou no símbolo de Batman & Superman logo no fim da primeira seqüência do filme? Será que a WB está preparando um filme com seus dois maiores heróis até 2012???

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Resenha> 30 Days of Night (2007)

22 Março, 2008 by Marcio Telles

 

30 days de noite

Gênero: Terror de Vampiros
Tempo de Duração: 113 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2007
Estúdio: Columbia Pictures
Orçamento: $32 milhões
Direção: David Slade
Roteiro: Steve Niles & Stuart Beattie
Produção: Sam Raimi e Ted Adams
Música: Brian Reitzell
Direção de Fotografia: Jo Willems
Efeitos: Weta Digital
Edição: Art Jones

Elenco
Josh Hartnett (Sheriff Eben Oleson)
Melissa George (Stella Oleson)
Danny Huston (Marlow)
Mark Rendall (Jake)
Ben Foster (Estranho)
Abbey-May Wakefield (Vampirinha)

RESENHA: Em processo de produção desde o lançamento da minissérie em quadrinhos original, em 2002, 30 Dias de Noite foi desde o início pensado no formato de filme. Deparando com o descaso dos produtores, Steve Niles adaptou sua história para os quadrinhos, onde chamou a atenção da crítica especializada. Encabeçando a produção está Sam Raimi, da colossal trilogia Evil Dead, portanto nome mais do que tarimbado para levar essa terrorífica história para as telonas. E horror é o que se vê: volta e meia, um machado é usado para separar do corpo a cabeça de um chupador de sangue. Volta e meia, somos presenteados com cenas de um vampiro mastigando a jugular de inocentes feito um feroz predador. Tudo com uma plasticidade de imagem impressionante, que nos remete às últimas adaptações de histórias em quadrinho para o cinema, tais como Sin City (2006) e 300 (2007).

Destacando-se como um dos grandes atores de sua geração, Josh Harnett dá vigor ao seu personagem, o xerife Eben Oleson. Ainda que rejeitado pela esposa Stella (a bela Melissa George, de Alias), Eben mostra-se dotado de um apurado senso de dever com os seus – sua família, composta pela ex-mulher, o irmão Jake e a avó Helen. De certa forma, ao apresentar esta unidade familiar integrada – todos da família ligados à autoridade – apreciamos a vida de uma cidadezinha normal norte-americana, que tem como singularidade o fato de, no alto inverno, passar trinta dias às escuras. Mesmo assim, as semelhanças com a Barrow real são poucas ou quase nenhuma – são 67 dias de noite, e não 30, e a maior parte da população é composta por esquimós, e não brancos.

No último dia de sol em Barrow, o xerife Eben é chamado por toda a cidadezinha para atender a estranhas ocorrências. Num canil, cachorros são degolados impiedosamente. Nos arredores da cidade, celulares são carbonizados. Há uma morte violenta, com a posterior cabeça do morto cravada numa barra de ferro e há um estranho estrangeiro que não aceita ordens de ninguém (Ben Foster, como sempre excelente), o que acaba o levando à prisão. Assim que a noite se instala e todas as conexões com Barrow são cortadas devido ao inverno rigoroso, a matança tem início. Os vampiros, liderados por Marlow (Danny Huston, filho do ator/diretor John Huston), transformam as ruas da cidade num banho de sangue, divertindo-se com suas presas que não têm para onde ir nem como se esconder.

Com unhas compridas, dentes apodrecidos e falando uma língua anciã e gutural, os vampiros lembram um monte Max Schreck e seu Nosferatu. Mas, ao contrário deste, faltam-lhe o assombro: são vampiros que mais parecem zumbis, todos sujos de sangue e com roupas esfarrapadas. Nada da elegância de um Drácula ou as boas maneiras e o instinto reprimido de um Nosferatu. Aqui os vampiros (zumbis) são verdadeiros carniceiros a fim de explodir todos os humanos que vêem pela frente. Acontece que o conceito de ‘máscara’ batizado por Mark Reinhagen, mas já presente nas histórias vampirescas desde Bram Stoker, em 30 Dias de Noite é esquecido de forma quase ingênua – quando se dão conta da burrada, de terem se revelado para os humanos sem pudor, os vampiros ficam nervosos.

Há algumas outras incongruências na fita: a falta de localização no tempo atrapalha. A população, que no primeiro dia de escuridão é de 152 pessoas, é rapidamente assassinada logo nas duas primeiras noites. O que deixariam os vampirinhos famintos pelos próximos 28 dias. Ou não? Isso é difícil de saber. Se mantivessem a discrição, os vampiros agiriam mais de acordo com seu passado filmográfico, mas o efeito visual perderia bastante… Quanto à direção, às vezes parece um tanto solta: talvez pela ansiedade de começar com a nojeira logo, sem se preocupar em apresentar muito os personagens, mas nossa empatia por Eben e Stella demora a engrenar. As pretensas cenas de tensão ou de susto são no geral fracas – ou rápidas de mais, ou sem música para apoio, ou sem trabalho de criação de ambiente. No geral, acaba lembrando mais um filme de ação com terror do que propriamente um filme de horror. Algo como Fantasmas de Marte de John Carpenter, porém menos angustiante. Poderia ter sido melhor.

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Resenha> Abusado, de Caco Barcellos

16 Março, 2008 by Marcio Telles

 

Abusado

 

BARCELLOS, CACO. Abusado: o dono do Morro Dona Marta. 9ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2004. R$ 55,00 em média.

As duas primeiras partes de Abusado, Tempos de Viver e Tempos de Morrer, biografam o traficante carioca Juliano VP (pseudônimo de Marcinho VP) de forma romanceada. Através da rigorosa série de entrevistas que Caco impôs durante anos, o livro aborda desde a infância até a morte de um dos maiores chefões do crime organizado brasileiro. Não só isso: quando percebeu que o material que tinha em mãos era mais rico do que o imaginado, Caco decidiu-se por contar a história de cada integrante do grupo que cresceu com Juliano e que o acompanhou (ou não) na vida criminosa, a Turma da Xuxa. Narrada, a história de Juliano e seus amigos toma ares quixotescos: o traficante é retratado como o “bandido com consciência social”, que admirava Che Guevara, devorava livros de filosofia e que pretendia pôr em prática uma revolução que partiria da própria favela.

Na terceira parte da obra, intitulada Adeus às Armas, Caco Barcellos deixa a posição de narrador onisciente e passa ser parte do próprio livro, na condição de personagem-repórter. E é aí que a coisa desanda. Logo nas primeiras páginas do novo capítulo, Caco admite os perigos de escrever um livro sobre um bandido. Sabe que, caso não trabalhado cuidadosamente, a escritura de tal material pode transformar a narrativa em pura apologia ao crime. Pode tornar-se crime. Causa estranheza esta súbita crise de consciência, já que Caco passa 400 páginas retratando Juliano como um herói dos pobres, estreitando nosso laço e criando nossa empatia para com ele. Até seus crimes são amenizados: normalmente citados ou intuídos, quando descritos, sua gangue nunca é violenta como a dos rivais, nunca há mortos ou feridos entre os civis. Pura apologia.

É claro, escrever sobre o crime e não tomar partido é dificílimo. Veja as puas pelas quais passa José Padilha, diretor de Tropa de Elite, que adota em seu longa posição contrária ao do autor de Abusado. A saída – pretender ficar em cima do muro – soa falsa em ambos em casos. No caso de Padilha que, ao justificar ter dado a “visão dos policiais” despreza suas próprias capacidades narrativas. No caso de Caco, desde a época de repórter setorista em Porto Alegre assumidamente a favor dos “fracos e oprimidos” – em suma, os socialmente excluídos, criminosos ou não.

O charme de Abusado está em sua própria fraqueza. Enquanto jornalisticamente imparcial falha de forma vergonhosa, enquanto retrato de uma das mais curiosas figuras brasileiras, é extremamente sedutor. Na escrita precisa e entusiasmada de Caco, Juliano VP torna-se um personagem tão essencial ao imaginário brasileiro quanto qualquer Leonardo Pataca ou Macunaíma. Torna-se a síntese da alma brasileira; porém de uma alma mais atual, ainda voltada para o ganho pessoal sobremaneira, mas afeita a obtê-lo no batente – ilegal ou não.

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Com a vaca ao brejo acompanhado por cogumelos

13 Março, 2008 by Marcio Telles

Histórias verídicas e duvidosas que só acontecem com pessoas realmente escandalosas: redação “minhas férias” para a volta às aulas na FACULDADE.

 

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Eu precisava pensar rápido. Mesmo se àquela hora da manhã a neblina ainda não tivesse cedido, eu precisava pensar rápido. Mesmo se a bebedeira da última noite ainda me deixasse com um gosto amargo na boca e os movimentos um tanto lerdo, era essencial que eu pensasse rápido. Quando quinhentos quilos de carne coroados com dois chifres pontiagudos vêm correndo furiosos na sua direção, você realmente precisa pensar rápido. Eu não pensei.

Menos de quarenta e oito horas atrás, nós havíamos chegado à Praia do Siriú, em Garopaba, Santa Catarina. A viagem, que em condições normais levava em torno de cinco horas, nos custou oito devido à má conservação das rodovias federais – e à chuva que não parava de cair em Florianópolis há pelo menos uma semana. Eram por volta das sete da manhã de sábado quando colocamos nossos pés na cabaninha que seria nossa morada pelos próximos cinco dias. Acordei ao entardecer e, ao fuçar no refrigerador atrás de algo para comer, deparei-me com a realidade que seria aqueles próximos dias: 48 latas de cerveja, 5 garrafas de uísque Jack Daniels, 12 de vodka Absolut, algumas latas de Red Bull e um solitário bolinho inglês deixado pra trás pelos últimos ocupantes do recinto. Admiti naquele momento que, se não lembrasse com exatidão de tudo o que aconteceria a partir dali, a culpa estava dentro daquele refrigerador.

O que me leva ao motivo pelo qual as pessoas veraneiam na segunda praia mais afastada do centro de Garopaba. Que fossem ao Rosa, endereço dos bacanas; à Ferrugem curtir a sombra dos coqueiros; à Silveira apanhar onda; ou à Preguiça, espreguiçar-se numa praia de águas verdes e sem onda. Por que se veraneia numa praia vazia, com ruas de terra de chão batido, siris na areia dura, uma solitária guarida de salva-vidas, ondas altas, chão esburacado, água suja? Por causa dos cogumelos.

Os cogumelos psilocibinos são todos aqueles com alcalóides ativos capazes de afetar o sistema nervoso central – e, num jargão nada científico, deixar a pessoa doidona. É um dos alucinógenos mais antigos utilizados pelo homem, conhecidos pelo nome simpático de “cogumelos mágicos” – consumidos crus, secos, cozinhados ou em forma de chá. Uma das espécies desses cogumelos nasce no estrume do gado conhecido no Brasil como Zebu – um amontoado compacto e musculoso de carne mal-encarada e chifruda. E praticamente só se vê gado Zebu no Siriú…

Então eu estava lá, tinha acabado de invadir propriedade alheia – um pasto – e preparava-me para a honrosa função de recolher cogumelo em merda de vaca quando ouvi um dos meus dois amigos que me acompanhavam gritar para eu tomar cuidado. Quando abri os olhos novamente após um longo bocejo – não eram nem sete horas da manhã – vi aquele animal gigantesco correndo enfurecido na minha direção. Eram meia tonelada de bicho troteando ensandecido. Eu ia ser atropelado, esmagado, destroçado… por uma vaca gigante. O maior vexame era mesmo póstumo. Falariam no velório: “vejam só, ele morreu catando cogumelos mágicos em estrume de vaca”.

Fechei os olhos prevendo o impacto quando o bicho estava a menos de dez metros de mim. Foi quando ouvi a intervenção divina vir na forma de um mugido demorado do lado oposto do gramado. Era C., um dos amigos que me acompanhavam, socado numa camiseta vermelha a mugir e a balançar os braços. Surpreendida pelo chamado, a vaca espiou para C. – quase pude ver um sorrisinho irônico em seus beiços caídos – e disparou em direção daquele pano vermelho que se negava a ficar parado. A distância entre ele e a vaca foi o suficiente para que C. conseguisse pular a cerca, o que eu também fiz, agora que o bicho havia esquecido de tentar me matar e encontrado algo mais divertido para perseguir.

E os cogumelos mágicos? Não recolhemos. Também não voltamos a tentar. Passamos os outros três dias no Siriú dividindo espaço com os siris, arrastando os pés na areia dura, banhando-se na água turva, prestando atenção com os buracos no fundo do mar para não ter que despertar do sono o salva-vidas solitário que passava o dia em cima da única guarita da praia mais alternativa de Garopaba.