ESPECIAL QT> Parte IV: Vivendo o Legado
29 Março, 2008 by Marcio Telles

Na quinta-feira que passou (dia 27), um dos cineastas mais comentados da última década (quiçá do século) completou 45 anos. Trata-se do enfant terrible Quentin Tarantino, cujo trabalho revolucionou a indústria de entretenimento norte-americana, permitindo (sem sombra de dúvida, isto é fato consumado e não está aberto a discussões) que o público norte-americano tivesse acesso a filmes que, do contrário, continuariam inacessíveis. Tarantino recolocou nas mesas de discussões nomes esquecidos como Pam Grier, Bruce Willis, Harvey Keitel, John Travolta (só para citar alguns) e apresentou outros, como Michael Madsen, Tim Roth, Steve Buscemi e Samuel L. Jackson. Mais do que isso, trouxe à tona a geração dos “realizadores malditos” de Hollywood, o pessoal da AIP (Action International Film), e sujeitos como Russ Meyer, Andy Sidaris, Roger Corman que, de tão esquecidos, já estavam empoeirados nas prateleiras de vídeo-locadora. Transformou-os em hits instânteos. Ressuscitou o exploitation e todas as suas vertentes – o que, para desespero dos puristas, repetiu a fórmula que o nosso José Mojica Marins já havia percebido nos idos anos 1960: o que o povão quer é sexo e violência, o resto é viadagem. Hooray!
Outros artigos da série:
1) As influências
2) Disparos do front da cultura pop
3) Tarantino, diretor
4) Vivendo o legado
As resenhas:
1) True Romance
2) Reservoir Dogs
3) Natural Born Killers
4) Pulp Fiction
5) From Dusk Till Dawn 



6) Jackie Brown
7) Kill Bill vol. I
8 ) Kill Bill vol. II
9) Death Proof

4: Vivendo o legado
Sem o espaço aberto por Quentin Tarantino, é de se especular que um diretor como John Woo nunca tivesse executado a transição entre Hong Kong e Hollywood. Simplesmente não haveria espaço para alguém que praticasse um filme com linguagem narrativa e estética considerada tão demodé e exagerada pelos críticos. Um gênero – a ação – nos últimos anos relacionado às produções de gosto duvidoso, resultado do próprio sistema de exploração hollywoodiana, talvez nunca retornasse ao topo das bilheterias se não fosse por películas como Reservoir Dogs ou Pulp Fiction. Forçando a barra, poder-se-ia até afirmar que, não fosse por Tarantino e sua paixão pela cultura pop, filmes baseados em quadrinhos e videogames teriam que aguardar mais tempo até verem seus produtos “descobertos” por Hollywood.
Uma das maiores influências que Tarantino legou ao cinema mundial é a desconstrução narrativa. Aproximando-se (e bastante) das elipses narrativas videoclípicas (por causa do videoclipe ou reflexo deste, não importa: como já dito, o trabalho de QT é influência da cultura pop e influenciado por ela), Tarantino pratica o ode à fuga dos grilhões do cinema narrativo baseado no romance do século XIX. Mas não é uma narrativa montada em flashbacks: é uma narrativa descontinuada e embaralhada, mas, sobretudo, pulverizada. Como em um livro, a história desenvolve-se por capítulos, e cada capítulo guarda em si os tempos que precisa para desenvolver sua ação. Este processo fica mais claro em Kill Bill por mero capricho do diretor (que intitula os capítulos, demarcando o fim e o início de cada um deles), mas ocorre também, ainda que menos perceptível no primeiro e quase invisível no segundo, em Pulp Fiction e Reservoir Dogs.
Apenas uma desestruturação narrativa exercida de dentro do esquema hollywoodiano permitira a exploração dos limites temporais por outros autores com igual sucesso de público e crítica. Estou falando de Run, Lola Run, de Tom Tykwer, cuja divisão temporal do filme em três capítulos que se repetem com desenlaces distintos é bastante tarantinesca. Seria o britânico Guy Ritchie com seu Lock Stock & 2 Smoking Barrels, cujo roteiro labiríntico anda para frente e para trás para retornar a si mesmo no final, tão bem sucedido na indústria? Curioso notar que ambos os diretores repetiriam em seus filmes seguintes a exploração do tempo e do espaço na narrativa cinematográfica – em Princess and the Warrior e em Snatch, respectivamente.
O terceiro e o quarto diretor que exploram este aspecto do trabalho de Tarantino foram os que mais contribuíram para a reflexão sobre a estrutura narrativa no cinema nos anos pós-Tarantino (1992 em diante). Um deles – talvez assustado demais com suas próprias descobertas – deixou de lado as experimentações em seus trabalhos futuros. O outro barbarizou a ponto de construir um filme com tantas elipses em seu núcleo narrativo que foi chamado de “youtubeano”. O primeiro é Christopher Nolan (Memento) e o segundo, Richard Kelly (Donnie Darko e Southland Tales). O roteiro de Memento, que ignora a memória e seus efeitos narrativos, abusa dos flashbacks que inicia um cada vez mais cedo do que o último – e, mesmo assim, consegue entregar um filme compreensível e sem pontas desamarradas. É um dos melhores exemplos da desordem narrativa iniciada em 1992 com Reservoir Dogs e levada ao cabo 14 anos depois por Kelly em Southland Tales. Porém, o trabalho de Kelly é tão perturbador, e ao mesmo tempo tão pastiche, que de lá para cá não existiram outras grandes explorações destas estruturas em Hollywood. Talvez pelo fato de Hollywood já ter absorvido estas estruturas, como visto, de forma mais acessível, em dois bons exemplares de ação: Crank e Shoot’em Up.
Esta narrativa fragmentada e episódica, na qual Michael Haneke é um dos expoentes (Funny Games, por exemplo), também exprime outro elemento do “legado” de Tarantino: a participação (às vezes sádica) do público nos filmes. Tanto em Tarantino quanto em Haneke, a recusa em absorver morais elevadas em troca de violência imediata também é marca deste cinema. Deixaremos claro que não foi Tarantino quem inventou estes elementos: é certo que, desde o advento e posterior crescimento do videoclipe durante a década de 1980, a forma narrativa clássica de Hollywood estava fadada ao desaparecimento, ou ao menos à reciclagem. Igualmente, desde o lançamento de filmes como Star Wars (1977) e Terminator 2: Judgment Day (1991), o triunfo do estilo sobre o conteúdo era questão de tempo. O mérito de Tarantino é ter feito esta transição da forma mais indolor possível e ter apresentado estes dois elementos - sem os quais é impossível pensar o cinema norte-americano no século XXI - ao maior número possível de espectadores.
Igualmente, só um autor que conhece seus limites e que freqüentemente os ultrapassa pelo bem da própria história é capaz de inserir, com desenvoltura, pensamentos e ações que visam exclusivamente o choque. Ao falar de forma preconceituosa sobre mongolóides (From Dusk Till Dawn), velhos (Jackie Brown), gays (True Romance) e negros (Pulp Fiction); e ao esfregar na cara do público o culto a violência inerente à sociedade (Natural Born Killers), Tarantino abriu espaço para os críticos da sociedade norte-americana saírem do underground para o mainstream. Sucessos de bilheteria e crítica tais como Boogie Nights e Magnólia (P.T. Anderson), American Beauty (Sam Mendez) e Storytelling (Todd Solondz) seriam inconcebíveis antes de Mr. Brown apresentar sua opinião sobre Like A Virgin em Reservoir Dogs. Aliás, repito, Tarantino existe para fazer exatamente isto: mostrar à uma velha “máquina de fazer sexo” (a sociedade) que ela pode sentir-se como uma “virgem outra vez”, mas estas novas verdades não vêm sem dor.
É claro que nem de longe estas sejam as mais importantes contribuições de Tarantino para o cinema. Quentin é o protótipo da “geração VHS”, que cresceu imerso nos produtos comercializados pela própria indústria cultural – videoclipes da MTV, filmes B norte-americanos, filmes asiáticos, europeus, independentes, grandes blockbusters hollywoodianos, quadrinhos de super-heróis, seriados de televisão, documentários e alta cultura mastigada. Quentin se coloca, enqunto pessoa, orbitado por este universo pop: só se vê enquanto indivíduo em relação ao sistema de valores (”gostos”) inerente à própria cultura pop. Resulta disso um cinema que referencia o próprio cinema (já mais do que absorvido pela sociedade). Assim, QT abriu caminho para que outros autores pegassem “emprestados” elementos de outros filmes para colocar nos seus. Chegando ao ápice com Be Kind Rewind, de Michael Gondry, que, não contente em apenas citá-los, refaz, em cena, os próprios filmes de sua adolescência.
O próprio conceito de “autor” foi modificado por Tarantino. Tanto o conceito de autor enquanto cineasta quanto autor enquanto diretor. Primeiro: mesmo nos filmes em que não dirige, seu “dedo mágico” é perceptível em personagens, diálogos e elementos. Anula, assim, o conceito francês de que o cineasta/autor é aquele sujeito responsável pela direção da película – nos filmes de Oliver Stone, Tony Scott e Robert Rodriguez baseados em roteiros de Tarantino é mais correto falar em termos de “co-autoria”. Segundo: a tênue linha entre diretor e trabalho é apagada com Tarantino. A noção de autor é reinventada ao fundir relações públicas e propaganda à sua obra artística. Sobre Tarantino, a celebridade mais verborrágica de Hollywood, é possível dizer que não é o autor que está morto, mas que o seu texto (a soma de seus filmes e roteiros) não existe mais.
Por último, ao admitir o conhecimento excepcional de sua arte (mesmo que o domínio sobre a mesma seja muitas vezes falho), é possível dizer que QT é mais um crítico do que um realizador e que, por isto mesmo, ele tem a capacidade de dizer o que é in e o que é out enquanto cinema, tanto em Hollywood quanto nos independentes. Assim, sua obra torna-se não só referencia para toda uma geração de realizadores, como também marco essencial de estudo e análise desta geração.
Resumindo, Quentin Tarantino não só reinventou a linguagem cinematográfica como também abriu espaços para outros autores serem descobertos pelo grande público (Michael Haneke, Gaspar Noé, Wong Kar-wai, Takashi Miike) e para que outros pudessem realizar filmes que, do contrário, nunca sairiam das gavetas (Eli Roth, John Cameron Mitchell, Guy Ritchie, Tom Tykwer, Chan-wook Pak).



























